Logo

O “novo normal” da participação feminina no mercado de trabalho

WhatsAppFacebookLinkedInX
22.09.2020 - 08:10:39

As crises evidenciam o desequilíbrio de gênero que é camuflado na sociedade moderna, e com a crise advinda da pandemia causada pelo Covid-19 não foi diferente. Em seis meses de pandemia, diversas pesquisas já demonstram o quanto as mulheres estão mais vulneráveis nesse período, e uma dessas consequências é o aumento do número de mulheres fora do mercado de trabalho.

 
O mercado de trabalho possui hoje a menor participação feminina desde o ano de 1990, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), e o fechamento de creches e escolas é um dos principais aspectos que colaboram com essa desigualdade, de modo que muitas trabalhadoras não tem onde deixar os filhos e acabam se vendo obrigadas a abrir mão de seus labores. 
 
Essa realidade se deve principalmente ao fato de os homens estarem em profissões que pagam maiores salários e ainda exercerem um poder de barganha relativamente maior do que o das mulheres, já que mesmo antes da crise, de acordo com um levantamento feito pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no início de 2019, as trabalhadoras ganhavam em média, 20,5% a menos que os homens no país.
 
Mesmo entre as mulheres que mantiveram seus empregos com manutenção de salários durante a pandemia, 41% delas afirmam trabalhar mais durante esse período, pelo acúmulo de atividades domésticas e cuidado com idosos e crianças.
 
A cultural divisão de gênero nas atividades domésticas e no cuidado com outras pessoas, sempre foram um abismo para as mulheres na conquista por espaço profissional. Dados do IBGE mostram que, em 2018, as mulheres que tinham uma ocupação profissional dedicavam 18,5 horas semanais às tarefas da casa e da família, contra 10,3 horas destinadas pelos homens.
 
Simone de Beauvoir já afirmava, no século XX, que bastava uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados, e o momento vivido nos elucida essa realidade, já que participação das mulheres no mercado de trabalho retroagiu 30 anos no tempo.
 
É necessária a compreensão de que o dinheiro e a independência econômica são marcadores importantes para a luta da igualdade de gênero. Uma mulher com dinheiro, posses e liberdade para usufruir desse espaço de possibilidades geradas pela renda, é uma ameaça ao sistema patriarcal, e por isso, o trabalho remunerado foi negado as mulheres durante tanto tempo.
 
O retrocesso do papel da mulher em sociedade não pode ser banalizado. A ONU Mulheres sugere algumas ações, tais como compartilhar os trabalhos de casa, ler, assistir e compartilhar histórias sobre mulheres, conversar sobre a desigualdade com a família, o ativismo de forma online, entre outros. Mas na verdade, a eliminação da desigualdade passa por diferentes aspectos e necessita de um grande pacto social visando o desenvolvimento econômico sustentável e inclusivo.
 
A crise emergente da saúde, desencadeia outras crises, e a análise das consequências geradas neste momento, devem ser utilizadas no combate à desigualdade de gênero, através de medidas impositivas de empresas e adoção de políticas públicas, no plano executivo e legislativo, que considerem que o impulsionamento do desenvolvimento econômico deve conjuntamente propiciar a igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho.
 
O trabalho remunerado não pode mais ser visto como algo acessório para as mulheres, pois só através dele e na consequente geração de renda, bens, posses e status social, é possível que as mulheres se tornem protagonistas de suas próprias vidas e colaborem efetivamente com o meio em que estão inseridas. 
 
A desigualdade de gênero é uma realidade histórica, que oprime, sobrecarrega e predetermina o espaço de todos em sociedade. Em 2020, muito se fala em aprendermos a viver o “novo normal”, mas não podemos permitir a ascensão do “velho normal” travestido de “novo”, onde a mulher volta para a cozinha e se fecha para as possibilidades do mercado de trabalho e sua independência.
 
*Laís Menezes Garcia é advogada especialista em Direito do Trabalho
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Laís Menezes Garcia

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]