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O que fazer com remédios vencidos?

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29.07.2011 - 21:05:51

 

Todo mundo, cedo ou tarde, se depara num belo dia com sua caixinha de remédios cheia de produtos vencidos. O que fazer? Jogar tudo no lixo comum pode ser perigoso. Vai que alguma criança ou cachorro come aquilo? Tem gente que opta pelo vaso sanitário. A descarga dá uma sensação de que o negócio irá para bem longe, não é?

Só que não é bem assim. Até o que excretamos dos medicamentos que consumimos acaba voltando para nossa casa, por meio da torneira da pia. Isso porque entre 50% e 90% do princípio ativo dos fármacos são eliminados pelo nosso organismo e vão parar nos rios e, por conseguinte, nas estações de tratamento de água. Lá, eles não são degradados por completo.

Pesquisas feitas em vários países vêm encontrando esses resíduos de medicamentos desde os anos 1970. No Brasil, onde os estudos são mais recentes, um trabalho de 1997 feito no Rio de Janeiro detectou anti-inflamatórios e antilipêmicos (que atuam na redução do colesterol) no esgoto bruto, no efluente da estação de tratamento e até nas águas de rio, em concentrações distintas. A remoção das substâncias pesquisadas, pelo sistema de tratamento, variou entre 12% e 90%.

Os resíduos farmoquímicos estão entre os chamados “contaminantes emergentes”. Estão lado a lado com produtos de higiene pessoal e restos industriais de efeitos ainda não muito conhecidos. Já se sabe, no entanto, que muitos deles podem atuar como interferentes endócrinos, isto é, com capacidade de provocar distúrbios hormonais, tanto em seres humanos quanto em bichos. Dependendo da substância, isso pode ocorrer mesmo em baixas concentrações. Assim, interferem no sistema reprodutivo e no próprio equilíbrio das células de um organismo.

Também detectados em diversas pesquisas, traços de anticoncepcionais e antibióticos estão entre os que mais suscitam preocupação. Os hormônios sintéticos podem afetar o sistema reprodutivo de peixes e provocar problemas endócrinos nos seres humanos, além de estarem relacionados a alguns tipos de câncer. O risco apresentado pelos antibióticos está no surgimento de bactérias superresistentes, cada vez mais difíceis de combater.

É mais um motivo para revermos nossa mania de tomar remédio pra tudo. Mas, além disso, imagine se todo mundo resolve jogar pílulas inteiras na privada?

Em São Paulo, algumas farmácias e drogarias aceitam os fármacos de volta. Como são obrigadas a dar uma destinação segura a seu próprio descarte, elas podem fazer o favor de dar fim ao que é do consumidor também. O projeto de lei 595/11 que tramita na Câmara dos Deputados torna compulsório esse recebimento.

Não existe uma legislação que trate do assunto, no que tange ao consumidor doméstico. As exigências de normas como a RDC 306/04 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou a RDC 358/05 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), somente se destinam aos grandes geradores de resíduos, como a indústria, os hospitais, as farmácias e drogarias e afins, que são responsáveis pela correta destinação final deles.

Os profissionais de saúde pública orientam que ninguém fique guardando remédio em casa. Além acabar estimulando a automedicação, que não é nada saudável, o hábito acaba por oferecer risco de intoxicação. Os fármacos são a maior causa de intoxicação no Brasil. De acordo com o Sistema Nacional de Informações Toxicofarmacológicas (Sinitox), em 2009 oficialmente houve 26,5 mil casos – 26% do total de ocorrências.

Em Goiânia ainda não encontrei nenhuma drogaria que aceite meus remédios vencidos. Mas descobri que a Vigilância Sanitária municipal da av. Universitária, número 644, recebe o material. Funciona de terça a quinta, nos períodos de 8h a 12h, e de 14h a 17h. Dali, os resíduos vão para incineração, tida como uma forma correta de descarte. Há muitos questionamentos a esse respeito, no mundo inteiro, mas isso é assunto para um post futuro. Mais informações pelo telefone (62) 3524-1589.

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por Elisa A. França

*Jornalista formada pela UFG, especializada em comunicação ambiental, com passagem pelo Greenpeace e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

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