Logo

Não ao “novo” normal, sim à um normal de verdade

WhatsAppFacebookLinkedInX
15.07.2020 - 08:32:53

Goiânia – Escrevi um artigo no mês passado, em um dos maiores jornais do país, questionando este “novo” normal e recebi muitas mensagens de pessoas concordando e poucos discordando.

 
Na sua concepção, que é este “novo” normal? Dizem que após a pandemia e a quarentena voltaremos mais conscientes, mais sustentáveis, mais digitais e com mais discernimento de algumas atitudes.
 
Muitos, que puderam ficar em casa, acabaram estudando via internet, ajudando os seus filhos na educação em casa, comprando via aplicativos do celular, ajudando as lojas e restaurantes do seu bairro, comprando de pessoas que faziam comida, etc. E, além de tudo, fazendo muitas doações. Segundo o Monitor das Doações da ABCR, chegamos a R$ 5,9 bilhões de reais doados. Só o sistema financeiro os bancos e quem trabalha com o dinheiro, acabou doando cerca de 30% deste valor; o setor de alimentos e bebidas 13%; as empresas de mineração 9%; e as campanhas de doação e lives foram responsáveis por 8%. E ainda, 5% doados por pessoas e famílias em sistemas de “vaquinhas” virtuais, como as plataformas Sharity ou a Kickante.
 
Mas o questionamento não é em relação a estas mudanças de comportamento durante a pandemia, pois realmente nunca tínhamos passado por uma situação parecida com esta nestes tempos modernos. Temos, na verdade, que perguntar ou ficar indignados pois não podemos chamar de normal os tempos antes da quarentena. Se chamarmos o antes de normal, estamos aceitando e consolidando a enorme desigualdade social; a morosidade pelas questões ambientais como o desmatamento e o aquecimento global; a crescente polarização, ódio e linchamento nas redes sociais; o racismo em todos os seus níveis; a preocupação do crescimento pelo crescimento, sem o foco na humanidade; o consumo inconsciente; entre outros grandes desafios das nossas gerações.
 
Estas “normalidades” podem ser aceitas por pessoas que acreditam em um mundo que não se pode mudar, influenciar, mobilizar ou normalizar. “Isso é coisa de sonhador, Marcus”, já me disseram várias vezes. “O mundo é assim e ponto”. “O sistema funciona assim”. “Não dá para mudar”. “Cresça e seja adulto, Naka”. “Mudar para quê? Se está bom assim”. Pois é, muitas destas frases que já escutamos e que continuamos “normalmente” ouvindo. Anormalidades, não é?
 
E o mais estranho é que continuamos assistindo nas telas pessoas inconformadas com estes “normais” como em Matrix e Star Wars, ou ainda, nas séries 3% e Expresso do Amanhã, da Netflix. Talvez seja exagero cinematográfico e mercadológico uma revolução armada, mas muito interessante focar o direcionamento para um verdadeiro normal em busca de reais melhorias para todos e para o planeta.
 
Neste final de junho e começo de julho tivemos várias conferências e webinares de organizações que estão nesta trilha em busca desta “Normal Idade” (era do normal) como a Conferência do Instituto Ethos; o Fórum Impacta Mais ON, realizado pelo ICE, Impacta HUB São Paulo e Vox Capital, que você pode assistir alguns dos debates (aqui); o Festival ABCR, que enfatizou as doações e as ações de captação de recursos no país; além das “pandemias” de LIVES como o Diálogos Envolverde (https://envolverde.cartacapital.com.br/dialogos/); e muitos mais. Ou seja, tem muita gente fazendo, debatendo e assistindo este movimento que busca um normal real. E temos parâmetros, objetivos e postulados para esta temática que muitos acham utopia.
 
Sim, será NORMAL quando conseguirmos fazer com que todos conheçam, entendam e pratiquem os Direitos Humanos e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Nestes documentos está o que, racionalmente, muitos países e pessoas se juntaram para falar o que seria normal para as pessoas e planeta. São metas, indicadores e paradigmas para serem trabalhados. Gosto de falar que é um “sonho comum” da humanidade. Temos que evoluir todos juntos, regenerar o planeta e buscar soluções inclusivas, equitativas, em larga escala e para todos.
 
Buscar um normal de verdade, talvez seja este “propósito” que muita gente está procurando alcançar em livros, cursos, workshops e palestras.  Fazer acontecer um normal de verdade é o que temos que realizar no nosso dia a dia. Em cada escolha, em cada compra, em cada ação nossa.
 
Ah, comece já parando de falar deste conceito “novo” normal!
 
Marcus Nakagawa é professor da ESPM; coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS); idealizador e conselheiro da Abraps; e palestrante sobre sustentabilidade, empreendedorismo e estilo de vida. Autor dos livros: Marketing para Ambientes Disruptivos e 101 Dias com Ações Mais Sustentáveis para Mudar o Mundo (Prêmio Jabuti 2019).
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Marcus Nakagawa

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]