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Já notou como algumas pessoas precisam ter razão?

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14.05.2020 - 08:35:40
 
Goiânia – Já notou como algumas pessoas precisam ter razão? Em debate recente com outra pessoa — no qual aceitei seu pedido —, a pessoa insiste em dizer-me o porquê de meu suposto erro. Imediatamente meu impulso foi responder-lhe provando por A + B que ela que estava errada. Mas lembrei de minhas aulas de Comunicação Não Violenta, ministrada por Fábio Santos (da Bona Empatio)! Ele dizia que precisamos entender quais são as necessidades do outro e seus sentimentos e… responder, com empatia.
 
A verdade é que esse curso mudou minha forma de enxergar a comunicação (fenômeno que estudo há quase duas décadas), e compreender que a primeira coisa que devemos fazer é ver a realidade, sem nossas opiniões e achismos, sem o que queremos que esteja lá, sem nossos sentimentos… A única forma de entender o sentimento dos outros é colocar os nossos sentimentos entre parêntesis (epoché, é o termo grego para isso) e então — só então — conseguiremos estabelecer uma ponte com a outra pessoa, uma ponte que permita uma relação de diálogo. Afinal, logos significa “sentido” e nossa meta num “diálogo” é criar uma relação de dois sentidos, não é?
 
E o que ocorre quando fazemos uma leitura da realidade? Percebemos a tensão por trás do problema aparente. Frankl alertava para o perigo de olharmos para uma sombra e compararmos com o objeto complexo que projeta a sombra. Essa metáfora serve para a vida e como olhamos para os comportamentos das pessoas: tendemos a enxergar ações como sendo a pessoa, quando, na verdade, são manifestações de algo mais profundo, já que há um espectro de comportamentos e habilidades que existem em cada um, e somos, consequentemente, muito mais que a soma deles.
 
Duas dessas habilidades que nos podem ajudar a entender nossos conflitos internos e, consequentemente, os conflitos que irrompem perante outros são fundamentais. Numa linha que parece unir esses dois pontos, cada um de nós está mais próximo a um ou a outro.
 
Em minhas mentorias com psicólogos, ajudo-os a ver onde eles se encontram nesse “continuum” e perceberem por que alguns pacientes incomodam mais que outros. Com os pacientes o foco vai para aqueles comportamentos que podem potencializar conflitos e, como vulcões que explodirem, e destruírem relações.
 
Peseschkian nomeia essas habilidades conectadas como Cortesia e Sinceridade. A cortesia, para ele, é a habilidade de nos ajustarmos ou alinharmos a renunciar nossos instintos e reações emocionais. O cortês extremo é aquele que é capaz de se desapegar de si pelo outro. É aquele que vai em direção aos desejos dos outros, diria Fernando Pessoa. A mãe que abandona a sua vida pelos filhos, o profissional que não emite sua opinião para manter-se com a camisa da empresa, o amigo que nunca discorda porque sua amizade é importante.
 
Já a sinceridade é a habilidade de expressar abertamente suas emoções, afirmar-se e ser assertivo. O problema é que a assertividade exagerada pode se converter em tirania, impondo sempre suas opiniões e exigências sobre os outros. Eu sei isso, porque Fábio Santos fez-me ver o perigo dessa assertividade. É aquele que faz o que quer, porque tem a firme convicção que aquele é o caminho certo e convence as pessoas a agir com ele (ou age sem elas e se torna um lobo solitário).
 
É do equilíbrio entre ambos os extremos que sai a ação significativa e responsável; que percebemos que podemos ajudar os outros, enquanto nos ajudamos; que nos melhoramos porque melhoramos o mundo.
 
A forma como as pessoas expressam seus gostos e desgostos, suas satisfações ou insatisfações mostram muito de si. Se a pessoa quer mostrar a sua razão, ela tende para a sinceridade — que é uma coisa boa! O problema é que a sua sinceridade exagerada e insistente aliena o outro, afasta o outro e acaba perdendo amigos e aliados. Geralmente defende-se em nome da “justiça” porque “precisamos esclarecer para não parecer injusto”, sem perceber que a sua fala cala o outro e é o silêncio do outro que permite a perpetração de injustiças.
 
“Então Sam, o que devemos fazer? Dizer sempre o que pensamos ou não?”
Nem tudo o que alguém sabe, precisa ser expresso, não é? E nem tudo o que lhe é possível expressar é sempre oportuno!
Então, não se trata de dizer o que penso ou não dizer… trata-se de quando dizer e como dizer.
 
A comunicação que realmente funciona precisa:
1. ler a realidade;
2. conhecer sentimentos (nossos e do interlocutor) e saber expressa-los;
3. compreender as necessidades que temos (nós e o interlocutor) e pensar “como posso satisfazê-las sem ferir ninguém”;
4. fazer uma proposta que permita solucionar o desafio.
 
Só assim poderemos ter aquilo que todos falam, mas poucos compreendem: a empatia, a capacidade de ser sincero com nosso mundo interno e honestos sem ferir o mundo do outro.
 
Sam Cyrous (Instagram: sam.cyrous) é psicólogo (CRP 09/8178), logoterapeuta, psicoterapeuta de casais e família, StoryTeller, e curador do TEDxGoiânia
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por Sam Cyrous

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