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História, literatura e cinema em diálogo intersemiótico

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11.07.2019 - 12:26:58
Goiânia – Em sua obra “Cultura Popular na Idade Moderna”, o historiador Peter Burke apresenta, dentre outros, um importante aspecto da tradição ocidental e sua formação. Trata-se da relação entre o erudito e o popular na cultura em sua multifacetada expressão. Afirma o historiador que entre a erudição do público letrado, que era rara, e as camadas populares da civilização do período renascentista, havia a figura do mediador.
 
Escritores que faziam a ponte entre o saber erudito e sua adaptação para as camadas populares formam uma das modalidades de mediadores, segundo Peter Burke. Dentre eles, destacam-se nomes como, por exemplo, François Rabelais, que na composição de seus “Pantagruel” e “Gargântua” se serve do imaginário bastante comum no período histórico abarcado pela análise de Burke para fazer a mediação entre aspectos da erudição católica e da cultura popular do século 16.
 
Guardadas as devidas proporções e contexto, o cinema na atualidade realiza mediação semelhante entre o que é considerado erudito e o que é considerado popular. No campo da mitopoese, por exemplo, ou seja, a construção de mitos modernos, de que os filmes de super-heróis constituem o modelo primordial, há toda uma interlocução entre a erudição canônica e sua transposição para o que se chama cultura de massa.
 
Em “Homem de Aço”, produção cinematográfica de 2013 dirigida por Zack Snyder, tem o espectador uma interessante mediação entre o erudito e o popular no roteiro que readaptou a história do herói de Krypton exilado no planeta Terra. No que diz respeito à crítica erudita, o herói kryptoniano já foi objeto de instigante análise psicológica, social e linguística por parte do ensaísta, filósofo, linguista e semiólogo italiano, Umberto Eco, que na obra “Apocalípticos e Integrados” estabelece instigante conexão entre o imaginário do herói e o seu congênere humano, que se caracteriza pelas fragilidades existenciais inerentes à humanidade.
 
Dialoguismo e intertexto 
Em “Uma Teoria da Paródia”, a teórica canadense, Linda Hutcheon, refere-se à competência do leitor e/ou espectador no vaivém intertextual da mensagem codificada em linguagem verbal e não verbal. Ou seja, em palavras e imagens. O intertextual é o mosaico de citações da proposição da semióloga Julia Kristeva em seus escritos sobre a textualidade, que desdobram o pensamento do filósofo da linguagem, Mikhail Bakhtin, sobre esse campo linguístico.
 
A competência do leitor/espectador está em reconhecer os outros lugares discursivos presentes na ressignificação com que se apresentam no processo de criação parodística hutcheniana. O filme de 2013 sobre o herói de Krypton apresenta um diálogo entre autores que estabelece de forma precisa o processo da competência a que Hutcheon se refere em seu trabalho. O diálogo se estabelece mais precisamente entre o personagem Hamlet e a intriga que se desdobra em “Homem de Aço” com o arranjo discursivo do seu roteiro, escrito por David Samuel Goyer.
 
Mesmo quem jamais tenha lido a peça de William Shakespeare, “Hamlet”, conhece a proverbial cena em que o personagem que dá nome à peça toma de um crânio, segurando-o contemplativamente, para enunciar a célebre sentença: “Ser ou não ser, eis a questão”. Sobejamente encenada e discutida, a fala hamletiana é evocada sempre que se busca refletir sobre as questões ontológicas da filosofia.
 
David Samuel Goyer, o roteirista da última adaptação do super-homem para o cinema, concebeu uma cena hamletiana bastante significativa no contexto narrativo do filme dirigido por Zack Snyder. A narrativa clássica apresenta o homem de aço sendo enviado ainda bebê para o planeta Terra, cujo sol amarelo conferiria a ele poderes divinos.
 
Um grupo de rebeldes kryptonianos, liderados pelo general Zod, também escapa do planeta, já que fora sentenciado por crimes contra a civilização daquele mundo e presos em um espaço dimensional que escapa à grande explosão planetária. Descobrindo que o filho de seu algoz cresceu e vive na Terra, o grupo vem em seu encalço.
 
Após travar contato com o seu concidadão, o grupo o convida a se unir a ele em um novo Krytpon, que se estabelecerá sobre as bases do mundo terreno. À pergunta de Kal-El (nome kryptoniano do super-homem) sobre o que aconteceria à Terra, as imagens projetadas se casam às palavras de Zod de que para edificar um novo mundo é necessário construir sobre a base do antigo, num procedimento tecnológico denominado de terraformação. No caso, kryptonformação.
 
Assim, o homem de aço se vê mergulhar vagarosamente em um verdadeiro oceano de crânios. Para que Krypton ressurgisse era necessário que a Terra deixasse de existir. “Ser ou não ser, eis a questão”. O espectador que conhece a antológica cena shakespeariana identifica o símile concebido por Goyer, demonstrando a sua competência hutcheniana, num autêntico processo de mediação entre o erudito e o popular, conforme informava o historiador Peter Burke em seu clássico “Cultura Popular na Idade Moderna”, numa intersemiose de produção de sentidos discursivos à Charles Peirce entre história, cinema e cultura.
 

*Gismair Martins Teixeira é doutor em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás.

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por Gismair Martins Teixeira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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