Logo

Militares de volta à cena política

WhatsAppFacebookLinkedInX
12.11.2018 - 10:30:24

Goiânia – A acomodação das placas tectônicas após o terremoto eleitoral permite distinguir traços fortes na paisagem  institucional. Um dos mais visíveis é o fechamento do ciclo da redemocratização que teve início em meados dos anos 80. A era Sarney, aberta com a morte de Tancredo Neves, escancarou a locução política, destravando os nós apertados na garganta nacional. O ancoradouro das demandas reprimidas nos tempos de chumbo foi a Constituição de 88, que completou 30 anos em 5 de outubro passado. Que sinais mostram o fim de um ciclo?          

A eleição de um militar reformado é o sinal dos novos ventos que soprarão na paisagem. Ela puxa para o cotidiano da política o maior grupo de militares que já participou de pleitos democráticos, a par da convocação inusitada de generais da reserva para formar o núcleo governamental. Um feito e tanto, quando se leva em consideração a índole militar: agir com discrição, cumprir o rito hierárquico, colaborar com governos em postos-chave de comando das Forças Armadas, enfim, evitar a intromissão exacerbada no dia a dia da política. Assim é a cultura militar.            

As curvas a que o país foi levado a fazer, que ensejaram o conjunto de crises ainda em curso – econômica, política, ética -, acabaram despertando o animus animandi da caserna, inserindo a expressão militar na enciclopédia do discurso político. E mais: motivando quadros de respeito nas Forças a adentrar as portas do Executivo, como é o caso dos generais Mourão (o vice eleito) e Heleno, ambos com histórico de comandos importantes.  

Portanto, os militares ascendem na política cotidiana não por intromissão indevida, mas em função do redesenho institucional, onde se contabilizam o desprestígio da classe política, a indignação social contra o modus operandi dos nossos representantes, a intensa vontade popular de dar um passo adiante.                  

Sob essa moldura, o capitão Bolsonaro representa esse passo. Parcela ponderável do eleitorado, a partir de segmentos da intelectualidade e contingentes de esquerda, o consideram um passo para trás. Ocorre que seus quase 58 milhões de eleitores o credenciam como a expressão da vontade da maioria. O discurso do presidente eleito, incluindo tiradas de mau gosto, feitas ao correr da trajetória parlamentar, se não recebe endosso popular, pelo menos não constitui motivo para sua rejeição.          

Outros sinais de fim de ciclo aparecem na própria engenharia da campanha, em que paradigmas do chamado marketing político foram derrubados, como tempo de rádio e TV(duração maior não ajudando candidatos), dinheiro (não elegendo aqueles com maiores recursos), escolha de representantes na cola do candidato presidencial (PSL fazendo uma bancada de 56 nomes), entre outros aspectos. O fato é que o pleito exibiu um parâmetro novo: a autogestão eleitoral. O eleitor votou como quis, sem influência de amigos, familiares ou partidos, e até realizou operações transversais, marcando no mesmo voto quadros de esquerda e da direita.          

Essa nova disposição do eleitor, caso mostre desejo de direcionar o país para uma curva à direita, significa ainda desaprovação aos governos do PT, ou seja, um veto à vereda de esquerda que o lulopetismo abriu.  

Nesse sentido, pode-se dizer que o jogo entre os espaços ideológicos está empatado, eis que o período da redemocratização abriga uma vitória de Collor e duas de FHC e, agora, a de Bolsonaro; e quatro vitórias, com duas de Lula e duas de Dilma.  Parcela ponderável dos eleitores de Bolsonaro, convém lembrar, freqüenta espaços do meio, principalmente contingentes de classes médias, profissionais liberais, setores da produção etc.

Se o capitão exprime posicionamentos de extrema direita, como é o caso, não significa que tem apoio de parcela de quem nele votou. Jogar todos na extremidade do arco ideológico é um erro. O mesmo se pode dizer de parcelas do eleitorado de FHC e mesmo de Lula e Dilma.              

Por fim, vale ressaltar que a democracia brasileira passou em mais um teste. Se a opção de 2018 se mostrar errada, o eleitor, autônomo, independente, poderá consertá-la em 2022. Urge não adiantar previsões.  

Gaudêncio Torquato é jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gaudêncio Torquato

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]