Logo

A importância do Setembro Amarelo

WhatsAppFacebookLinkedInX
22.09.2018 - 13:19:49

A Campanha Setembro Amarelo foi criada em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), com apoio de entidades internacionais de prevenção ao suicídio. Setembro é o mês mundial de Prevenção ao Suicídio. Ao pesquisar as origens da campanha, vejo que muitos dos textos replicados falam em “celebrar” ou “comemorar” esse dia. Será mesmo correto falar em celebração ou comemoração para um evento tão grave? Seguramente não. Nem pela data em si, nem pela pouca eficácia que temos tido em, de fato, prevenir o suicídio, sobretudo porque há um grande descaso da sociedade e ainda um grande despreparo dos profissionais de saúde para lidar com a pessoa que está pensando ou que tentou se suicidar.
 
Em casa, na escola, entre os amigos, pessoas que pensam na possibilidade do suicídio como alívio para seu sofrimento psíquico são, muitas vezes, tratadas com descaso, desprezo e chacota. Nos serviços de saúde, sobretudo em prontos-socorros e pronto-atendimentos, essas pessoas geralmente são vítimas de violências verbais, do tipo: “quer morrer, faz direito” ou “minha filha, tanto paciente grave para atender aqui e você chega com essa frescura? ”; e não raras vezes, de violências físicas, com utilização de procedimentos desnecessários ou invasivos, seja por despreparo, seja por perversidade, com o intuito de castigar aquela pessoa que já está sofrendo.
 
Estudos sobre suicídio mostram que, muitas vezes, o suicídio concluído, ou seja, quando a pessoa consegue de fato dar fim à sua vida, ocorre com muito mais frequência logo após uma tentativa de suicídio malsucedida. Talvez, o principal motivo seja realmente o fato de a pessoa continuar num estado de sofrimento e desejar exterminá-lo. Por outro lado, temos que pensar que esse novo ato que pode levar a pessoa à morte pode ser resultado do descaso, da falta de empatia de familiares e amigos, da falta de suporte adequado nos serviços de saúde. Não raras vezes, quando uma pessoa tenta suicídio e é levada a um pronto-socorro, ela recebe alta após compensada a parte clínico-cirúrgica (efeitos das medicações ingeridas, sutura de ferimentos, entre outros) sem ter sequer sido avaliada por um profissional de saúde mental. Em alguns casos, mesmo que essa pessoa seja avaliada por este profissional, ela recebe alta com receitas médicas, encaminhamentos e, na longa espera por uma consulta psiquiátrica ou atendimento psicológico, a esperança pode se esvair um pouco mais e culminar com um novo ato, que pode ser fatal.
 
Quando falo de longa espera por atendimento, não me refiro apenas ao atendimento no SUS. É claro que há uma defasagem imensa de profissionais e serviços de saúde mental e o atendimento extra-hospitalar, que deveria ser rápido nesses casos, pode chegar tarde demais. Mas esse problema também ocorre com frequência na rede privada, onde a espera para uma consulta psiquiátrica também pode demorar alguns meses nos convênios médicos.
 
Nos muitos anos em que trabalhei em serviços de emergência na cidade de São Paulo, atendi inúmeros casos de tentativas de suicídio e pude constatar que, quando uma pessoa que está pensando em se matar recebe atendimento adequado, com atenção, cuidado e sensibilidade; quando seus acompanhantes são bem orientados e quando você oferece opções mais rápidas de atendimento, com uma reavaliação ou uma consulta marcada em poucos dias, é possível fazer com que essa pessoa se vincule melhor ao tratamento, trazendo esperança e melhora da qualidade de vida. Entre 2014 e 2016, coordenei um serviço de atendimento de pacientes agudos, chamado “Ambulatório de Crise”, no qual pessoas com quadros que haviam chegado no pronto-socorro eram atendidas poucos dias após, no máximo em uma semana após a alta hospitalar. O resultado era muito positivo: evitavam-se internações, diminuía-se o tempo de permanência no pronto-socorro e a pessoa já iniciava o atendimento ambulatorial, com maiores chances de vincular-se ao tratamento.
 
Concluindo, não adianta fazer uma campanha maciça contra o suicídio se não mudarmos a visão sobre o paciente suicida e sobre a pessoa em sofrimento mental; também é inútil oferecer “ajuda” nas redes sociais, copiar e colar mensagens de apoio num mural virtual se não formos realmente capazes de acudir e ajudar aquela pessoa. E, finalmente, não podemos banalizar a saúde física e mental, com “meses coloridos” que sejam pouco efetivos na prática.
 

*Marcelo Niel, médico psiquiatra e psicoterapeuta junguiano, Doutor em Ciëncias pela UNIFESP, supervisor clinico-institucional em Psiquiatria Clínica e Psicoterapia

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Marcelo Niel

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]