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Empregos, competitividade e pesquisa

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10.09.2018 - 18:43:33
Foram semanas ricas em notícias importantes. E não estou falando de eleições ou candidatos. Se bem que os candidatos deveriam se preocupar com isso. (1) O agronegócio foi o campeão em fechamento de vagas. (2) O produto industrializado nacional chega ao mercado 30 % mais caro que os concorrentes. (3) A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) vai cortar milhares de bolsas de pós-graduação em função do corte de verba.
 
Assuntos aparentemente independentes e desconexos. Será? Acho que não. Há um denominador comum na raiz de tudo isso: PESQUISA. Os chamados, até há pouco tempo, de Tigres Asiáticos, tiveram seu desenvolvimento industrial fortemente apoiado em pesquisa com geração de patentes e processos industriais que resultaram em produtividade. 
 
Para isso, mandaram contingentes de recém-saídos das universidades buscar formação mais completa no exterior. Na volta, havia estrutura para que pudessem trabalhar. No Brasil, desde a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), houve interesse na complementação da formação de pessoal na área do agronegócio. E, senhores, qual o setor no qual o Brasil é realmente competitivo? Qual o setor que vem bancando as contas nacionais? O agronegócio. Mera coincidência? Claro que não!
 
E agora outra notícia: a Capes, a principal financiadora da pós-graduação no Brasil, sofre cortes a ponto de interromper o programa de formação dos pesquisadores que poderiam realizar as pesquisas, gerar patentes, criar e aperfeiçoar processos. Não me parece muito inteligente da parte do governo.
 
Bom, e o problema de fechamento de vagas no agronegócio? Primeiramente, o negócio é que não é bom negócio ter muitos empregados no meio rural. Uma legislação trabalhista completamente fora da realidade.
 
Depois, onde tem se investido em formação de pesquisadores? Onde, apesar dos pesares, a pesquisa brasileira tem sido reconhecida mundialmente? Na produção agrícola e pecuária. Há, é certo, outras áreas, como a medicina e umas poucas outras.
 
O desenvolvimento tecnológico, com o barateamento das tecnologias mais a dificuldade imposta pela legislação, resulta em demissões na área mais competitiva de nossa economia. Também, no campo, se exige hoje pessoal cada vez mais qualificado. O agronegócio deixou de ser um depósito de mão de obra não qualificada. A solução? Educação e qualificação para que este contingente consiga colocação, desta vez com salários mais altos.
 
Entretanto, nem tudo são flores, mesmo nesta área tecnologicamente avançada da sociedade brasileira. Começando pela área federal, a Embrapa ficou meio fora de rumo, e sofre necessária reestruturação. As universidades formadoras dos quadros de pesquisadores padecem de falta crônica de recursos para o desenvolvimento de pesquisa de alto nível, para o que dependem de convênios com instituições do exterior.
 
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), um dos principais financiadores de pesquisa, tem lançado menos editais de pesquisa, e os lançados não têm seus valores corrigidos há tempos. Em São Paulo, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), importantíssima e fundamental, sobrevive como é possível. 
 
Os Institutos de Pesquisa como o Agronômico de Campinas, o de Zootecnia, o Biológico, o de Economia Agrícola, entre outros, são deixados a morrer de inanição. Falta de responsabilidade dos governos.
 
Enfim, o agronegócio que vive e faz o Brasil viver é competitivo e gera trabalho para pessoal tecnificado com base na pesquisa do passado. Estamos vivendo, mal comparando como um caminhão na banguela na descida, usando a energia acumulada. Está tudo bem. Mas ali na frente tem subida. Como vamos lidar com isso?


*Ciro Rosolem é vice-Presidente de Estudos do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor Titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
 
 
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por Ciro Rosolem

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