Samuel de Jesus*
Goiânia – O artista plástico Rodrigo Flávio recebe convidados para a abertura da exposição individual "Pequena Coleção de Incitações" no Centro Cultural UFG (CCUGF), nesta quarta-feira (5/9), a partir das 19h.

Tela de Rodrigo Flávio (Foto: divulgação)
"A exposição é composta de pinturas e objetos de grandes dimensões fruto da residência do artista em Montevidéu, em 2017. O Rio de La Plata que banha a capital do Uruguai foi objeto de intensa pesquisa para a criação de Rodrigo. De lá ele extraiu ruínas da cidade, “as incitações”que deram origem à exposição, que tem curadoria de Gilmar Camilo. A individual estará em exposição até 5 de outubro com entrada gratuita.
O conjunto de obras selecionadas apresenta ao público a sua produção mais recente. Essa exposição estabelece um diálogo entre pinturas e mostra de sobras, vestígios e objetos extraídos de casarões hoje destruídos, que deram início a sua pesquisa. Trata-se de uma produção plástica por meio da qual a artista vêm questionar a transformação da cidade e suas relações com o seu legado urbanístico contemporâneo, além do resgate da sua memoria, reativada através das formas e camadas coloridas sucessivas aplicadas nas telas. Espaços pictóricos estes que agenciam e destacam várias linguagens heterogêneos passando por impressões, cores e sobreposições.

Mais do que uma exposição, no sentido estrito do termo, Pequena Coleção de Incitações aparenta-se mais ao site specific, na medida em que ela se desenvolve, dentro do espaço da Galeria, na junção de elementos esparsos, fragmentados, e incita a seguir um percurso cuja organização resultou de um processo de pesquisa e experimentado pela primeira vez na exposição Arqueologia de restos de uma cidade organizada em Goiânia, em 2015, na Galeria Stella Isaac.
A pesquisa de Rodrigo Flávio iniciou-se em Buenos Aires, no bairro conhecido pelo nome de La Boca, no qual ele instalou o seu ateliê. Vale a pena destacar o fato do artista observar, nesse mesmo bairro, o soterramento dos escombros produzidos pelo projeto de expansão da Avenida 9 de Julho até a Zona Portuária da cidade. É igualmente a partir desse mesmo soterramento histórico que o artista começou questionar a relação de grandeza aplicada ao monumento, além da sua função meramente comemorativa. A coleção aqui exposta investiga, ao contrário, os seus avessos escondidos, por meio do exercício da coleta e da constituição de um arquivo singular, composto de objetos e outras sobras, reativando assim o sentido apostado pelo artista Tony Smith, em sua época, ao que diz respeito a sua reflexão acerca da possível existência da obra enquanto não objeto e não monumento.
Rodrigo Flávio apropria-se e reatualiza, por meio desse inventário em processo, as marcas visuais, as narrativas históricas e as supostas presenças de lugares hoje desaparecidos, fantasmáticos. Articulada acerca de oito pinturas, essa exposição oscila entre a forma cartográfica e o arquivo. Baseada na ideia de um mapeamento pelo uso de um registro fotográfico de antigos casarões coloniais presentes nas cidades de Buenos Aires e logo depois, em Montevideo, ela desterritorializa e torna visível as suas ausências físicas na trama urbanística, operando uma passagem pela transposição das suas representações fotográficas na pintura. Essas obras e seus desdobramentos tridimensionais demonstram a inquietação do artista com temas associados a ideia central de caos urbanístico, perda da memoria e elaboração de uma poética baseada na própria existência desses vestígios, em suas propensões poïeticas, com o âmbito de manter vivo um passado em perpetua mudança.
Nessa perspectiva, essas camadas de memorias sucessivas encontradas e apropriadas no próprio substrato do solo encontram na superfície das telas os seus receptáculos, levando o artista a elaborar um método, ou seja, uma prática taxonômica semelhante a uma arqueologia do mundo (pós)moderno, pela sua capacidade de dar conta, mas também pela escolha de resgatar ou omitir os objetos e fragmentos narrativos a serem – ou não – descartados. Eis é a Khôra, ou o Gênio do lugar, tal é a necessidade telúrica da origem, como o lembra o filosofo Jacques Derrida, ao pensar a memoria e sua própria destruição, em tempos contemporâneos acelerados.
Nesse inventário da destruição, o modo como Rodrigo Flávio interpreta essas provocações visuais consolida finalmente o desejo de uma arte que intensifica a presença da artista, enquanto sujeito contemplativo de uma realidade tanto coletiva, quanto singular. Uma experiência da efemeridade na qual essa arte encontra toda sua força imagética, sempre mediada por uma vivência estética à qual ela nos convida. A exposição Pequena Coleção de Incitações desenha um percurso que convida, nesse sentido, o ethos sempre constante da artista, ao questionar e incorporar o que é tido como sobras do real, na sua própria transcendência e, finalmente, na sua sútil poética visual.”
* Samuel de Jesus é professor doutor em História da arte contemporânea e História da fotografia