Regina Galvão*
Num passeio com a Boobam ao centro cultural Japan House, inaugurado no sábado (6 de maio) em São Paulo, a designer Miki Inoue (à esq.) e a arquiteta Lea Yuko, criadoras das luminárias do Design Kiiro, reviveram experiências do passado e histórias compartilhadas pelos pais e pelos avós japoneses.
Conexão, obra do artista Chikuunsai IV Tanabe construída in loco, faz alusão ao encontro entre Brasil e Japão.
No número 52 da av. Paulista, a Japan House proporciona uma experiência que estimula os sentidos. E não só isso, para os milhares de descendentes de japoneses que vivem no Brasil, o centro cultural doado pelo governo do Japão – Londres e Los Angeles também terão suas sedes – resgata memórias afetivas. Foi o que aconteceu com a designer paulistana Miki Inoue, filha de mãe e pai nascidos em Hiroshima e Kyushu respectivamente, ao visitar o local.
Minimalistas, os espaços da Japan House convidam a contemplar.
“
Aqui, me senti como na primeira vez que entrei numa loja de departamento no Japão. Quando o elevador se abriu na seção de brinquedos, fiquei boquiaberta com todas aquelas maravilhas. Miki Inoue.
”
Lea diante da escultura Ponte em Círculo, de Shigeo Kawashima, produzida com bambu brasileiro.
Os brinquedos de bambu, expostos numa das vitrines do térreo do centro cultural, também chamaram a atenção de Lea (na foto) e Miki.
O espaço multimídia, com vista para um jardim zen, oferece 1,9 mil livros para consulta divididos em temas, como arquitetura, gastronomia, design, entre outros.

Na vitrine do terceiro piso, cestarias utilitárias e artísticas feitas de bambu.
A maior surpresa da Japan House para Miki e Lea, porém, ficou reservada ao terceiro andar, onde a obra Conexão, do artista Chikuunsai IV Tanabe, domina o espaço expositivo com suas 5 mil tiras de bambu entrelaçadas, representando as vidas que se cruzam nesse encontro entre as duas culturas. A instalação integra a exposição Bambu – Histórias de um Japão, selecionada pelo curador e diretor Marcello Dantas para estrear a programação do centro cultural, cujo objetivo é trazer ao Brasil os mais relevantes criadores e empreendedores japoneses da atualidade nas artes, no design, na moda, na gastronomia, na ciência e na tecnologia.
Nessa mesma área, também repousam, até 9 de julho, a escultura Ponte em Círculo, de Shigeo Kawashima, produzida in loco e que simboliza o relacionamento entre os dois países, e os prismas elípticos de Hajime Nakatomi, considerado o artista da geometria. Ver de perto esse precioso acervo deixou Lea nostálgica. “Meu trabalho de conclusão de curso na faculdade de arquitetura foi sobre o bambu. O manuseio desse material é milenar e inspira flexibilidade, resistência e beleza. As tramas vistas aqui revelam uma conexão infinita entre o Brasil e o Japão. Isso, de uma certa forma, também está presente no nosso trabalho, pois os fios que formam as luminárias sugerem a infinidade de caminhos que nos conduzem ao futuro”, avaliou.

Na Floresta de Bambu, a dupla do Design Kiiro relembrou cenas de infância ao ver o trecho do filme
O Conto da Princesa Kaguya (2013), do cineasta Isao Takahata, que concorreu ao Oscar de animação em 2015.
Com design de interiores pautado no minimalismo e em técnicas tradicionais japonesas como o washi (presente em alguns painéis de divisão), a Japan House favorece a quietude e a contemplação. “Aqui parece ser um oásis em meio ao corre-corre da metrópole”, considerou Kimi, que pretende retornar com a família para visitar mais uma vez o espaço. Com tantos atributos, será mesmo difícil aos transeuntes da mais famosa avenida brasileira resistir a uma parada neste templo contemporâneo japonês.
Detalhe da obra de Chikuunsai IV Tanabe, que soma 5 mil tiras de bambu entrelaçadas.
Bambu e papel, materiais comuns na cultura japonesa, foram empregados nos interiores da Japan House,
cuja arquitetura é assinada pelo renomado arquiteto Kengo Kuma em parceria com o escritório paulistano FGMF.
Miki diante do painel que anuncia a exposição Bambu, Histórias de Um Japão, cuja curadoria é de Marcello Dantas, diretor de programação da Japan House.
Peças do cotidiano, como hashis e utensílios para o chá, também estão presentes neste templo cultural que conecta tradição com contemporaneidade.
Bambu – Histórias de Um Japão
Até 9 de julho, na Japan House, na av. Paulista, 52
De terça-feira a sábado, das 10h às 22h
Domingo e feriados, das 10h às 18h
Entrada gratuita
O CONTO DA PRINCESA KAGUYA, apresentado numa edição de seis minutos na Japan House, será exibido na íntegra entre 2 e 17 de junho no CineSesc, na rua Augusta, 2075, em São Paulo.

*Regina Galvão
Jornalista especializada em arquitetura e design, atuou como editora nas revistas Casa Vogue, Casa Claudia e Viver Bem. Escreve para o
blog Boobam.
(Fotos: Luiza Florenzano)