Kamylla Rodrigues
Goiânia – A jornalista goiana Cristiana Lôbo está há mais de 30 anos na cobertura da área política. Ela revela que sonhava em ter um programa musical na rádio, mas foi no jornalismo político que que ganhou destaque e se tornou referência. Bem humorada, Cristiana conta que atualmente, em Brasília, é preciso tomar banho de cuia, pelo menos uma vez na semana, como forma de racionalizar água. O tom de brincadeira, no entanto, é deixado de lado quando o assunto é o Congresso Nacional. "Situação delicada", diz ao destacar que o cenário atual indica mudanças.
Cristiana Lôbo esteve em Goiânia esta semana para compartilhar experiências no circuito de palestras promovido pelo Sebrae Goiás. Em entrevista ao Jornal A Redação, a jornalista, que cobriu os governos João Figueiredo, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef, fala sobre as mudanças no cenário político, na sociedade e no jornalismo.
A pasta de Caju, as cachoeiras da Cidade de Goiás, além das festas em Goiânia fazem falta na vida de Cristiana, que, após perder os pais, visita pouco seu Estado natal. Hoje, Cristiana é comentarista da GloboNews e âncora do Programa Fatos e Versões.
(Foto: Letícia Coqueiro / A Redação)
Confira a entrevista na íntegra:
Jornal A Redação – Qual o seu panorama do Congresso Nacional?
Cristiana Lôbo – O congresso hoje está polvoroso, porque todo o seu comando vive em uma situação delicada. Temos os presidentes da Câmara e do Senado citados nas delações da Lava-jato, além de pelo menos 80 parlamentares com foro privilegiado. Se tudo andar no seu caminho normal, o Congresso não será mais o mesmo. Se não andar no caminho normal, o país não será mais o mesmo, porque se eles conseguirem se salvar eu não sei qual o tipo de reação que vai ter a opinião pública. Nós, jornalistas, estamos esperando o dia em que o conteúdo dessas delações será divulgado. São mais de 950 horas, então vamos ter muita coisa para ouvir.
Jornal A Redação – Você está na cobertura de política há mais de 30 anos. Já havia presenciado um cenário tão insatisfatório?
Cristiana – Estamos vivendo um momento histórico, pois vemos um processo muito forte de investigação e de denúncias e não sabemos qual será o final disso. Eu vivi o fim da ditadura e o começo da redemocratização, mas na época você via o Congresso e a sociedade juntos, defendendo a volta da democracia. Era um movimento grande a favor de alguma coisa. Agora é um movimento grande da sociedade contra a corrupção. Há uma desesperança, pois temos uma combinação de crises: política, econômica, de representatividade e de confiança. Tudo num momento só. Parece que os astros se moveram pra dizer: agora é a hora de vocês escolherem o caminho.
Jornal A Redação- Você enxerga um futuro auspicioso?
Cristiana – Eu acho que é essa a expectativa. Eu acho que o foro tem que acabar. Acompanhamos muitos movimentos para passar tudo para debaixo do tapete.
Jornal A Redação – Você já enfrentou alguma dificuldade no seu trabalho por ser mulher em um ambiente predominantemente masculino?
Cristiana – Não. Há respeito. Hoje não enxergo nada de preconceito ou machismo. Acho que é porque a mulher trabalha muito e ela se firmou muito rapidamente. O jornalismo é uma profissão muito feminina. E a atuação da mulher não deixou a desejar. Foi muito bem feita. Em um outro aspecto, acho que a mulher sofre para disputar eleição. A representatividade é mínima. Metade da população brasileira é feminina, mas no Congresso as mulheres são 10%.
Jornal A Redação –
Você acredita que se houvesse essa equidade de gênero dentro do Congresso, o conério hoje seria diferente?
Cristiana – A gente teria olhares mais diferentes. Tivemos uma mulher presidente e nem por isso as coisas mudaram numa velocidade maior. A questão de gênero é importante para dar equidade, não quer dizer que haverá mudança. Em alguns assuntos, como a questão da discriminalização do aborto, o olhar feminino é diferente.
Jornal A Redação – A que você atribui o motivo da representatividade na política ser baixo?
Cristiana – Eu acho que na politica elas [as mulheres] ainda não conseguiram espaço porque o financiamento da campanha é feito pelos homens. Os financiadores preferem os homens.
Jornal A Redação – Qual foi o assunto central de sua palestra no Sebrae?
Cristiana – Eu falei de política e de economia, que está saindo de uma recessão muito profunda e o mundo que a gente vai encontrar é um mundo muito diferente. O consumidor e o eleitor mudaram. Temos uma mudança em curso. Hoje está muito na moda falar em uberização, que é essa expectativa das pessoas em fazer as coisas por conta propria. O Jornal A Redação é um exemplo disso.
Jornal A Redação – Você se considera uma empreendedora?
Cristiana – Eu não. Eu sou uma gastadora. É brincadeira. Eu sou bem pão dura. Acho que ser pão dura é uma viturde. Uma vez eu perguntei para o Fernando Henrique se ele era pão duro e ele disse que não gostava de desperdício. Mas ele é bem pão duro. Se você vai para algum lugar, ele sempre pergunta: 'quem vai pagar?'. Mas é esse tipo de comportamento que vai sair dessa crise. Em Brasília estamos tomando banho de cuia uma vez por semana. Estamos tendo que estocar água e esquentar na hora do banho. Eu tô achando até chique. Isso é economizar água e energia. Isso é civilização. Eu falo que vou contar para os meus netos que antigamente a gente molhava a grama à vontade. Hoje não tem mais isso. Mas voltando à questão do consumo, eu compro coisas que ninguém me pergunta se é P, M ou G.
Jornal A Redação – Seu interesse na política é antigo?
Cristiana – Não. Eu gostava de música. Queria ter um porgrama musical na rádio. Projetei isso para minha vida. Mas antes mesmo de colar grau na Universidade Federal de Goiás (UFG) fui chamada para O Globo, onde cobri Ministérios da Educação e da Saúde. Depois cobri a área militar na ditadura e aí fui para o Congresso e para o Palácio. Acabei ficando na área naturalmente.
Jornal A Redação – Do que você sente falta aqui de Goiás?
Cristiana – Da Cidade de Goiás eu sinto falta de banho de cachoeira e pasta de caju. Daqui de Goiânia eu sinto falta de um tempo muito feliz, de muita música, de tempo bom, pessoas boas. A minha memória de Goiânia é isso. Venho muito pouco aqui porque já perdi meus pais, mas qualquer oportunidade eu aproveito para voltar.