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Rio Doce terá dois depósitos de lama para evitar rompimento de barragem

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02.11.2016 - 08:36:19

Belo Horizonte – O vaivém de caminhões não para. Funcionários a serviço da mineradora Samarco abrem e fecham a estrada de terra que liga o município de Rio Doce à usina hidrelétrica de Candonga, para controlar o trânsito. Ali, dois diques estão sendo construídos para conter a lama e aliviar as estruturas da represa. Se romperem, já há um vilarejo apontado como "a próxima Bento Rodrigues": Santana do Deserto, uma vila de pescadores que seria levada pela lama.

Feitas para bloquear o curso da água do rio, as paredes de concreto da usina estão segurando 13 milhões de m³ de lama que vazaram da Barragem do Fundão, em Mariana, cuja ruptura, em 5 de novembro de 2015, deixou 18 mortos e um desaparecido. Estimativa da Samarco aponta que 80% da lama está concentrada até essa parte do Rio Doce.

O temor da população é que a usina se rompa, ampliando o desastre que já tira a renda de moradores da região. As estruturas da represa são monitoradas tanto pelo Consórcio Candonga, dono da usina hidrelétrica, quanto pela Samarco. Dois diques estão sendo erguidos com areia e pedras trazidas pelos caminhões. Para conter o avanço dos sedimentos da Samarco em direção ao mar, o Rio

Doce, que fornece água para 27 cidades, terá dois depósitos de lama. Segundo a empresa, os diques serão estruturas permanentes. "Elas são metálicas, com características similares às estruturas usadas na construção de portos e atracadouros de navios", diz a Samarco, em nota. "Ficarão submersas quando o reservatório da usina hidrelétrica for novamente enchido." Um deles, a "Barreira A", ficará 14 metros abaixo da lâmina d'água e está previsto para o ano que vem.

O outro dique, a "Barreira B", vai ficar 9 metros abaixo da lâmina e deve ser finalizado no mês que vem. Foi nesse trecho do rio, onde está a represa, que a maioria dos 18 corpos das vítimas das barragens da Samarco foi localizada. A lama parada ali vem sendo drenada pela empresa, enquanto as comportas de Candonga permanecem abertas. Há pressa, uma vez que chuvas do período devem trazer mais rejeitos.

Samarco quer retirar a lama que se acumula nos depósitos artificiais. Desde julho, ela usa duas dragas, que tiram até 5 mil m³ de rejeitos por dia. A hidrelétrica está com as atividades paralisadas desde a tragédia. A energia produzida ali era distribuída entre empresas consorciadas. Além da própria usina, o prejuízo ficou para a cidade de Rio Doce, que recebia royalties da energia. Até agora, a Samarco se comprometeu a gastar R$ 20 bilhões na recuperação da região e com indenizações.

Temores
A vila de Santana do Deserto, que faz parte do município de Rio Doce, tem menos de 200 moradores. São apenas duas ruas, paralelas, cercadas por fazendas de um lado e o rio do outro. Para chegar lá, só pela estrada de terra, que contorna a usina. Lá, agora, há uma sirene de emergência, para tocar caso a barragem rompa. Placas de sinalização indicam a rota de fuga.

Há três meses, os moradores passaram por um treinamento sobre como agir, caso ela seja acionada. Foi feita uma palestra e distribuídos panfletos. "Disseram que, caso a sirene toque, devemos ir para a praça", diz a professora aposentada Maria Vera Vieira Leandro, de 63 anos, indicando um ponto localizado na parte mais alta da vila. "O pessoal fica assustado, mas eu não acho que vai acontecer novo acidente", diz. "Se bem que não dá para confiar muito, né? Olha o que já aconteceu." Ela brinca com o nome da vila. "Está um deserto mesmo", diz a professora.

Segundo Maria, antes da tragédia, os pescadores estariam trabalhando e, em uma tarde de sexta-feira, como quando o Estado esteve ali, o local teria gente nas ruas. "Ninguém nunca mais pescou. Quem iria comprar os peixes?", afirma a dona de casa Raimunda de Brito Riva, de 66 anos. "As pessoas estão recebendo o cartão da Samarco para não passarem necessidade", o motorista Mario do Nascimento, de 46 anos. "Mas o povo não sabe como vai ser: se isso será para sempre, se vão limpar o rio, se vão voltar a trabalhar. Por aqui, a gente ainda espera." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

(Agência Estado)

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por Mônica Parreira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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