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Fome na África, a tragédia que o mundo não vê

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21.01.2012 - 12:18:53
 
Desde a passada sexta-feira 13, os meios de comunicação de todo mundo noticiam com destaque cada informação nova sobre o naufrágio do navio Costa Concórdia, na costa da Itália, que causou a morte de onze pessoas, e o desaparecimento de outras 21, até o momento em que era escrito este artigo. 
 
O tema merece cada linha e minuto a ele dedicados, em função das mortes causadas, da suposta negligência do capitão do navio e para evitar que tragédias como esta se repitam, em uma modalidade de turismo, cada vez mais utilizada, em todo o mundo. 
 
Aproveito o momento de comoção para lembrar outra tragédia anunciada e não evitada, esquecida pela imprensa, governos, órgãos multilaterais, agências humanitárias e ONGs. Refiro-me a maior seca das últimas seis décadas, que atinge a mais de treze milhões de pessoas e, em 2011, provocou um número de mortes que pode variar de 50 mil a 100 mil pessoas, a metade delas crianças menores de cinco anos, em quatro países da África Oriental: Etiópia, Quênia, Somália e Djibuti, segundo estimativa do Departamento para o Desenvolvimento Internacional, DfID (sigla em inglês). 
 
Não foi por falta de alerta. Em agosto de 2010, sistemas de alerta precoce avisaram ao mundo sobre os riscos iminentes da seca e as conseqüências assoladoras que esta provocaria nos meios de subsistência daquelas populações, como pequenos cultivos de alimentos e criação de gado, levando a milhares de mortes. 
 
Só em julho de 2011, quando o desastre estava consumado, começaram a chegar ajuda em larga escala. Até as agências humanitárias requeriam provas da catástrofe para atuar. Pois as provas estão aí, expressas em dezenas de milhares de mortes, aos olhos cegos do mundo.  
 
As mortes não só não foram evitadas, como continuam a acontecer neste exato momento, sem os esforços internacionais necessários para frear a continuidade da tragédia e sem a pressão que os meios de comunicação de todo o planeta deveriam fazer. 

Diamantes não matam a fome
Trata-se da mesma África, cujos recursos naturais e humanos vêm sendo explorados fartamente por muitos países, ao longo da história. O continente abriga a metade das reservas de ouro do mundo e a terceira em diamantes.
 
A África dos contrastes, que já conta com uma classe média formada por 313 milhões de pessoas e outros 500 milhões de pobres; em que doze países mantêm crescimento de mais de 6% ao ano, desde 2006, em boa parte devido à exploração e venda de petróleo; que é invadida pela mão de obra chinesa, em busca de recursos minerais, energéticos e terras e que dali extrai dividendos extraordinários; que é um mercado potencial para a produção e venda do etanol da cana de açúcar brasileiro.
 
O aumento dos preços do açúcar, do milho e do trigo, usados para a produção de energia, dificultaram ainda mais o acesso aos alimentos de milhares de pessoas, que vivem abaixo da linha da pobreza, com menos de um dólar por dia. 
 
O mundo tem uma dívida histórica com o continente africano. Inglaterra, França, Portugal e Espanha fizeram muitos daqueles países colônias, exploraram e destruíram parte de suas riquezas. A força da mão de obra escrava contribuiu para que nações, como o Brasil, chegassem ao desenvolvimento atual, a custa de muito sofrimento e mortes. 
 
Mas Etiópia, Quênia, Somália e Djibuti não têm a força política e econômica da Itália, expressa em visibilidade mediática, no momento. Os milhares de cidadãos africanos que morrem de fome, jamais viajaram em um cruzeiro. 
 
Quando muito, arriscam a vida em embarcações clandestinas para cruzar o estreito de Gibraltar e chegar à Espanha, em busca de uma vida melhor. A grande maioria morre de desidratação, na travessia. Uma morte tão cruel como a causada pela fome, numa época em que a produção de alimentos mundial é suficiente para abastecer os sete bilhões de habitantes do planeta. 
 
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por Eliane de Carvalho

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