Marina Morena
Atualizada em 29/12, às 12h36
Um ambiente sujo, superlotado e fétido. É assim onde vivem cerca de 180 pessoas abrigadas pela Prefeitura de Goiânia, na Casa de Acolhida Cidadã, localizada em Campinas. Basta entrar nos primeiros corredores que o cheiro logo se torna insuportável. Banheiros sujos, pessoas sem tomar banho, crianças descuidadas e comida estocada de maneira inadequada.
Este foi o cenário encontrado, na noite desta quarta-feira (28/12), pela frente de averiguação constituída pela Comissão em Defesa dos Direitos da Criança, da Câmara Municipal de Goiânia, Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Conselho Tutelar e Pastoral de Rua. Estas frentes se reuniram para checar as condições em que adultos e crianças estão vivendo no local, e a equipe do AR foi até lá conferir.
O abrigo foi criado para atender pessoas e famílias sem condições de moradia, ou que passam pela cidade e não tem como pagar por hospedagem. O local deveria disponibilizar atendimento educativo, médico e psicossocial. No entanto, a precariedade das instalações tem se tornado o ponto mais relevante. Gisele Francisca de Souza, 28 anos, chegou com o marido, Wesley Vieira da Cruz, 27, há alguns meses. Com eles, cinco filhos, dos quais dois foram encaminhados para outro abrigo, a pedido do pai das crianças. “Meus outros três filhos ainda moram comigo, mas não sei o que é pior. Aqui eles passam falta de leite, comida certa, fraldas e produtos de limpeza”, relata.
O casal afirma que a casa tem apenas dois banheiros para atender a todos os internos. “Banheiro aqui não tem porta e a gente passa vergonha, porque eles não separam mulher de homem ou criança”, relata Wesley. “Cada banheiro tem um chuveiro quente e um chuveiro frio. Pra esse tanto de gente que tem aqui, não dá. A comida é a mesma todos os dias. A gente só come arroz, feijão e macarrão”, completa.
Pelo corredor, uma placa indica que uma sala seria uma brinquedoteca. “Meus filhos nunca entraram nessa sala, ela nunca foi aberta”, declara outra pessoa acolhida. Diego Ferreira Souza, de 23 anos, afirma que o abrigo recebe muitas doações de alimentos, produtos de higiene e roupas, mas que ficam estocados em salas trancadas. Muitas vezes, caixas de leite, que deveriam ser distribuídas para as crianças, são guardadas até esgotar o prazo de validade.
Conselheira tutelar e também presente na vistoria, Daniela Fernandes diz que sempre recebe denúncias das más condições do lugar. “Nos quartos onde deveriam dormir apenas quatro pessoas, estão dormindo dezesseis. Isso não pode acontecer.” Os funcionários da Casa de Acolhida, por sua vez, reclamam que muitos abrigados sofrem com problemas de vício de drogas, doenças diversas e não contam com ajuda de profissionais especializados. Com a superlotação e o reduzido quadro de servidores, muitos deixam de ser devidamente atendidos.
O vereador Elias Vaz (PSol), presidente da Comissão em Defesa dos Direitos da Criança, na Câmara Municipal, e que estava no local, afirmou que um relatório da situação da Casa de Acolhida Cidadã será produzido pela frente de averiguação e encaminhado à Secretaria Municipal de Assistência Social de Goiânia (Semas) o mais rápido possível.
Em resposta, a Semas informou que irá averiguar os fatos para, depois, se manifestar sobre o assunto.