Jairo Macedo
Houve um tempo em que o rock goiano não tinha muita coisa. Tudo era meio tosco e, se você quisesse sair por aí tocando ou ouvindo rock nessa cidade perdida, tinha mais era que perambular pelos buracos mais improváveis. Houve um tempo em que, se o som não era lá essas coisas em termos técnicos e ganhar alguma grana era uma hipótese absurda, ao menos era tudo bem mais divertido.
Acreditando nessa prerrogativa da diversão e desprendimento de outros tempos, o músico e historiador Eduardo Kolody tinha uma idéia antiga de produzir um documentário a respeito da banda Hang the Superstars, velhos conhecidos do rock goianiense que estiveram na ativa entre 1997 e 2007. “Era uma produção independente. Inicialmente eu iria fazer sozinho, mas ainda bem que surgiram esses loucos dispostos a fazer junto”, conta ele. Estes “loucos” são os jornalistas Adérito Schneider e Maiara Dourado, que toparam colaborar com a produção do filme.
Mais que isso, os dois sugeriram um novo formato para a captação de recursos: o financiamento colaborativo – ou crowdfunding -, pelo qual as pessoas interessadas em ver o projete se tornar realidade colaboram com doações em dinheiro e recebem contrapartidas equivalentes. “A coisa acontece meio que em rede, no passe e repasse, e estamos acreditando na galera que apóia a música independente para nos ajudar nessa empreitada”, explica Maiara. Como exemplo local de uso bem-sucedido do crowdfunding, os produtores do futuro documentário citam o Rabiscaria, loja virtual de arte e produtos customizados que se tornou realidade com a ajuda da plataforma Catarse, a mesma que os produtores do documentário roqueiro usam.
O custo completo do projeto é de R$ 10 mil reais e, após os 90 dias em que estará em captação no Catarse, estima-se que chegará à fase de produção e finalização em seis meses. Muito material em VHS reunido pela banda e amigos deve ser digitalizado até lá. Se a colaboração será o suficiente? “A gente está apostando muito no Catarse. Se não der certo, a gente vai parar pra ver o que fazer”, afirma Adérito. Maiara vai além e enxerga no formato uma fuga dos processos de produção com financiamento público na cidade. “Acho que é uma ótima oportunidade de se ver livre dos editais, que muitas vezes nos mantêm reféns”. Até o momento, em apenas algumas horas de divulgação, o projeto já angariou 14 colaboradores e tem se espalhado pelas redes sociais.
Hang the Superstars
Neste 10 anos de existência, o Hang the Superstars fez de tudo. Tocou em todas os lugares possíveis, dentro e fora do Estado, se apresentou na MTV e no saudoso Musikaos, da TV Cultura, e registrou o melhor da garageira goiana em vários K7’s, EP’s e CD. E o que é mais importante: a despeito do próprio desleixo, influenciou uma geração. Ensaios nunca foram o forte da banda, nem a sobriedade em cima dos palcos. Ainda assim, aquela desordem meio punk, meio The Cramps e meio B-52’s deixa saudades em muita gente. Kolody era um deles. “Sempre foram despretensiosos, a atitude deles era tocar e se divertir, sem grandes compromissos”, relembra o historiador. “Hoje muitas bandas fazem um sonzinho adolescente meia-boa e já se acham. Naquela época era diferente, ninguém esperava ‘ficar hype’ com banda de rock, eles estavam mais interessados no som e na diversão”, compara.
.jpg)
Segunda e última formação do grupo (Foto: Divulgação)
Eduardo não consegue desassociar seus estudos acadêmicos da paixão musical. Seu mestrado na área foi sobre os Mutantes e, embora leve a idéia do documentário como um interesse pessoal de fã e amigo da banda, acredita nele também como um meio para entender uma época que passou, mas que teve vital importância para o que existe hoje.
Para conhecer ou relembrar, assista abaixo à apresentação da música “I Hate Your Daddy”, no finado programa Gordo Freak Show, da MTV: