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Lourenço Mutarelli retorna aos quadrinhos

20.12.2011 - 08:18:12
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Jairo Macedo

Já se passaram seis anos desde que o paulista Lourenço Mutarelli, encurralado pela dura rotina de quadrinista e pela dificuldade de se surpreender com seu próprio trabalho, decidiu abandonar a criação de histórias em quadrinhos e migrar para a escrita de romances. A Caixa de Areia (2005) foi o último desta leva. De livros em prosa, já são seis publicações. No cinema, teve alguns desse livros adaptados e até foi o protagonista em um deles, O Natimorto, dirigido por Paulo Machline. Nos últimos tempos, no entanto, Lourenço resolveu registrar com "materiais ruins" esboços em pequenos cadernos. Novamente estimulado pela narrativa gráfica, tratou de aperfeiçoar algumas idéias. O resultado é o recém-lançado Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, a tão esperada volta aos quadrinhos do autor.

A bela edição de capa dura e formato horizontal lançado pela Companhia das Letras não é tão "volta às origens" assim. O paulista de voz calma e pausada que atendeu ao telefonema de A Redação fala em experimentação todo o tempo. O novo livro é formado por 112 páginas com um único quadro em cada uma delas. Nestes quadrões, Mutarelli abandonou o preto e branco do nanquim para, com tinta acrílica, compor um traço inédito para ele. "Acontece que a própria acrílica era uma técnica que eu não costumo usar muito, era algo para me surpreender, venho fazendo muita experimentaçao para que exista ainda algo que me fascine", explica ele. "Ultimamente ando muito fascinado com a cor e, se continuar a fazer quadrinhos, vai ser sempre buscando estes novos formatos", complementa.

Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente é a memória insólita de um filho. Seus pais rezavam por uma vida metódica, mas são surpreendidos por um bizarro acidente que envolve carros e pedras. Viúvo, o pai amargurado sai para uma pescaria e avista um disco voador. Simples assim. Este pai, que vai e volta nos quadrões de Mutarelli em retratos quase estáticos, guarda uma semelhança indisfarçável com William Burroughs. Trata-se mesmo do escritor americano? "Tem esse elemento, é claro, mas é só uma referência imagética, como também são o Bortolotto e o Paulo de Tharso", desconversa Mutarelli, referindo-se a dois amigos, o dramaturgo Mário Bortolotto e o ator Paulo de Tharso, outros que surgem repentinamente nestas páginas. Também não é o seu próprio pai, que já inspirou o quadrinista em outros momentos de sua obra, em especial o detetive Diomedes. "É uma figura paterna que está sempre próxima, é verdade, mas é referência mais pela figura também", diz ele, para em seguida se contradizer um pouco: "O Burroughs do livro é um outro pai adotivo e, de alguma forma, a história é um diálogo com esse Burroughs, como se ele fosse um pai".


 

Lourenço Mutarelli criou mesmo uma fixação indisfarçável pelo avô da geração beat. Embora conhecesse o clássico Naked Lunch há algum tempo, foi apenas em 2006, quando começou a elaborar o que veio a ser o romance A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, que o escritor americano se tornou uma referência direta. "Dessa vez, eu tava pronto para ele, mas antes não me tocava", diz. De qualquer forma, o Burroughs que conhecemos, de fisionomia sempre meio perplexa, cai bem como o protagonista de uma história que poupa diálogos. Há balões em Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, quase sempre vindo da boca do Pai-Burroughs, mas não há palavras neles. As palavras vem do filho narrador, que por vezes conta algo que não guarda sincronia com a imagem em que está inserido.

Se Nada me Faltará, o romance mais recente do autor, é formado somente por diálogos, o Lourenço Mutarelli que retorna aos quadrinhos prefere o silêncio. Mais que isso, prefere que a ousadia visual tome conta das páginas sem maiores interferências ou direcionamentos verbais.

Sketchbooks
O próximo lançamento de Mutarelli é uma curiosa reunião dos tais caderninhos acumulados por ele. Desde uma viagem a Nova York, que teve como propósito a escrita de um livro para o projeto Amores Expressos, Lourenço vem anotando idéias desconexas nestes sketchbooks. O livro de Nova York ainda não saiu, preso por insatisfações por parte do autor e da editora, mas os cadernos serão reunidos em cinco volumes e lançados pela editora Pop. "Está ficando bem bonita a edição deles e dá para entender melhor essa volta aos desenhos a partir deles", diz.


Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente
Autor: Lourenço Mutarelli
Editora: Cia das Letras
Páginas: 112
Preço: R$ 44,50

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por Jairo Macedo

*Estagiário do jornal A Redação

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