São Paulo – Jérôme Valcke é afastado da Fifa depois de o Estado e outros nove jornais internacionais revelarem que o francês fechou acordos para ficar com parte dos lucros da revenda de ingressos para a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, num esquema com ágio de mais de 200% nos valores das entradas e que teria envolvido mais de 2 milhões de euros (R$ 8,6 milhões) apenas para o bolso do dirigente.
"A Fifa anuncia que seu secretáriogeral, Jérôme Valcke, teve suas funções encerradas com efeito imediato e até próximo aviso", indicou a entidade em nota. A Fifa também confirmou que as alegações foram levadas à Comissão de Ética da entidade, que investigará o caso com rigor. Falastrão e milionário, Valcke ficou conhecido por ter sugerido que o Brasil levasse um "chute no traseiro" pelos atrasos na obras da Copa do Mundo.
Na Fifa, ele levou a entidade a ser condenada por uma multinacional e que custou a ela US$ 90 milhões em 2006. Naquele momento, a Fifa também anunciou seu afastamento. Mas ele voltaria em 2007 como número 2 da entidade. Agora, as alegações apontam para a organização de um verdadeiro mercado negro de ingressos operando dentro da própria Fifa.
A denúncia foi apresentada por Benny Alon, empresário israelense e americano que desde 1990 trabalha com a venda de entradas para os Mundiais. Sua empresa, a JB Marketing, ainda apontou para o "desaparecimento" de 8,3 mil entradas para a competição e que teriam de ser vendidas por eles no torneio. O Estado foi um dos dez meios de comunicação do mundo e o único no Brasil a receber com exclusividade emails confidenciais de Valcke, que se declara inocente, revelando um esquema milionário para a revenda de entradas para o Mundial de 2014 e que está sendo avaliado em um possível caso no Comitê de Ética da Fifa.
O centro do escândalo é a empresa JB Marketing, que fechou um contrato em 2010 com a Fifa para vender pacotes de ingressos VIPs. Pelo entendimento, 11 mil ingressos seriam entregues a eles em locais "nobres" dos estádios do Mundial no Brasil em 2014. A empresa teria o direito de escolher doze jogos para os quais pediria ingressos para colocar no mercado, com preços acima do valor de tabela.
Outros doze jogos seriam escolhidos pela Fifa e a entidade lhes entregaria partidas sem o mesmo apelo comercial. Esse último pacote envolveria 2,4 mil ingressos. Em dezembro de 2012, no Rio de Janeiro, Alon procurou Valcke durante a Soccerex e pediu um novo encontro para tratar do assunto. A reunião, porém, ocorreria apenas em março de 2013. O empresário viajou até Zurique e, no escritório da Fifa, explicou que gostaria de renegociar a questão dos doze jogos mais fracos e obter melhores partidas para o Mundial de 2014.
Segundo ele, pelo esquema montado, sua empresa perderia US$ 300 mil (R$ 1,2 milhão aproximadamente) se o acordo fosse mantido. "Valcke foi até seu cofre, colocou suas digitais e tirou dali nosso contrato", contou Alon. "Valcke então me perguntou: O que tem aqui para mim?", disse o empresário. "Eu respondi que poderíamos dividir 50% para cada um. Naquele momento, não pensava que a divisão seria com Valcke, mas com a Fifa e que a entidade ficaria com 50% do lucro que eu fizesse".
Pelo novo acordo, os ingressos que a JB poderia vender não seriam mais as entradas para jogos "fracos", sem muito apelo do público brasileiro, mas sim para os principais jogos do Mundial. Isso envolvia todas as partidas da seleção brasileira e a grande final no Maracanã. O acordo fechado era de que o valor do ágio na venda dos ingressos seria repartido em 50% entre a JB e Valcke. No dia 2 de abril de 2013, Valcke confirma o acordo por email.
O entendimento era ainda de que os dois iriam se ver no dia 3 de abril de 2013 em Zurique. Na ocasião, Alon traria o dinheiro em uma maleta. "Era um adiantamento", explicou o empresário. O parceiro comercial de Alon, Heinz Schild, conta que foi até um banco em Zurique e retirou de um cofre US$ 250 mil. A mala usada também era um agrado. Valcke, francês, tem uma Ferrari branca e a mala, portanto, tinha o desenho de uma Ferrari branca com uma bandeira da França.
OUTRO LADO
No Brasil, o diretor da Match foi liberado e o caso foi encerrado. Procurada, a Fifa não se pronunciou durante todo o dia.Mas, extraoficialmente, Valcke mandou recados de que é inocente, de que jamais recebeu dinheiro de Alon e que o contrato da JB foi encerrado justamente por que se descobriu que os ingressos eram vendidos acima do preço. Valcke, que já deixou claro que deixaria a Fifa em fevereiro, vivia uma pressão ainda maior por uma renúncia diante das revelações. Há três meses, documentos apontaram que ele sabia e assinou a transferência de US$ 10 milhões para o exvicepresidente da Fifa, Jack Warner. O dinheiro foi considerado pelo FBI como suborno. (Agência Estado)