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“Segue teus sonhos! (Cancelado)”

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16.12.2011 - 19:50:27


Uma cena que volta e meia me vem à cabeça eu vi durante a greve geral em Lisboa, fim do mês passado. Um bloco de percussão de jovens universitários, pintados e com cartazes, se juntava à multidão em frente à Assembleia. Um dos jovens carregava o seguinte cartaz: “Segue teus sonhos! (Cancelado)”. Eu fiquei realmente abalada quando conversei com Cláudia Tirone, aluna da Universidade de Coimbra, e ela me contava que eram mais de 800 estudantes que já tinham deixado a universidade por não terem bolsas. Efeitos da crise. É só imaginar, a médio e longo prazo, o que a falta de mão de obra qualificada provocará no desenvolvimento do país e todos os problemas sociais que decorrerão disso.

De fato, é único estar aqui na Europa, Portugal principalmente, nesse momento de muitas mudanças sócio-econômicas. E, o mais interessante nisso tudo, é concomitantemente o Brasil estar passando pelo processo contrário. Confesso, é prazeroso encher o peito e começar a palestrar contando das vagas na universidade que têm aumentado, bem como o número de professores, de bolsas, de institutos técnicos e tudo mais. Mas, por outro lado, não há prazer nenhum em ver a crise de perto e as dificuldades saltando aos olhos e os sonhos minguando. Principalmente dos jovens, e é deles que quero falar.

Por conta de um trabalho da faculdade, estive entrevistando alguns jovens formados em Educação Social aqui no IPB. A primeira foi a Ana Patrícia. Está no mestrado, mas desempregada. Ela conta que sabe de uns três colegas, apenas, de sua turma de graduação que estão atuando na área. Os demais, desempregados. Ela expressou, durante a conversa, um profundo desânimo com o mercado de trabalho, apesar de gostar bastante do curso.

Depois conversei com Carina. Ela se formou em 2007 em Educação Social, mas trabalha no caixa de uma frutaria aqui em Bragança. Quando terminou sua licenciatura, só havia oportunidades de trabalho a 100 km daqui, um período apenas e a remuneração não valia o deslocamento. Ela não vê, por enquanto, perspectiva de atuar na área com a realidade atual.

Por fim, entrevistei uma caloura, Sofia. Geralmente, quando entramos na faculdade, os objetivos não são lá muito pragmáticos (quando temos). São sonhos e a gente acha que vai ser possível realizar. E muitas vezes são. Mas a gente não pensa, logo de cara, que não vai dar. Se não, por que razão estaríamos naquele curso? Quando comecei a fazer jornalismo, eu sabia que seria jornalista e trabalharia em algum lugar quando formasse. Ganhando bem ou mal, num lugar mais ou menos bacana, sabia que trabalharia.

E aí que a fala de Sofia me tocou. Pareceu uma cereja no bolo do desânimo que vejo nos jovens em relação aos seus futuros. “Quero trabalhar com crianças em risco ou em hospitais. Se isso vai ser possível, aí eu já não sei. Um sonho de cada vez. Consegui entrar no IPB”. Ela acabou de entrar, mas já sabe de casos como de Ana Patrícia e Carina e, talvez por isso, essa fala. E por essa razão, talvez, eu encontre com ela tantas vezes estudando na biblioteca. Ela sabe que vai ter que fazer muito para se destacar.

Não que no Brasil seja fácil se formar e ter um trabalho. Muito pelo contrário. Muitos recém-formados desempregados, muitas áreas saturadas, muita ralação durante o curso para conseguir se destacar. O ponto é: as oportunidades, aqui, começam a minguar paulatinamente, conforme a crise avança. Não conseguem ver, hoje, em Portugal, boas perspectivas. Para corroborar isso, exemplifico. Minha professora de Alemão dispensou uma aula toda incentivando meus colegas a fazer intercâmbio e reforçando que o futuro, hoje para eles, está fora de seu país. “Formem e saiam daqui. Portugal não vai dar futuro para vocês, vão para Brasil e África”.

Lembrei-me dessa fala dela quando ouvia o presidente da CGTP, Carvalho da Silva, durante a greve geral. Em seu discurso reforçava que era preciso contestar cada medida do governo que sacrificasse os direitos e conquistas sociais. “Para que nossos jovens continuem aqui e realizem vossos sonhos em vossa pátria”. O grupo de jovens percussionistas universitários bateu bastante os tambores essa hora. E, ao ouvir Cláudia dizer que as bolsas estão sendo cortadas, lembrei-me de uma ligação pouco antes de vir. Sou pesquisadora voluntária pelo CNPq porque, por conta do meu trabalho, não posso receber bolsa. Mesmo assim, me ligaram: “Nádia, está sobrando uma bolsa. Não vai querer mesmo?”

E não é só em Portugal. Na Itália fiz um amigo que dispensou um bom tempo reclamando da falta de perspectiva que vê em trabalhar em seu país. Seu plano é formar e deixar a Itália. Ele quer casar, ter família, uma casa e viajar nas férias. Ele disse que não vai conseguir fazer isso com o salário que oferecem aos economistas (seu curso) em seu país.

E daí que me vem à mente aquela imagem da Europa que temos há tanto tempo. Tão consolidada social, política e economicamente que parecia quase inabalável. Estudar, entrar na universidade, ter um trabalho e vida digna parecia um caminho natural e tranqüilo por aqui. E mesmo que não fosse para academia, as pessoas ainda podiam viver bem. Jamais imaginaria assistir esse abalo de perto. Isso é história. E devo dizer, infelizmente, que é um processo que só está começando. Ironicamente, hoje, quem vai ajudar esse país e continente a reverter a situação seremos nós.
 
 

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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