João Unes e Sarah Mohn
Nova York – O ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso (PSDB) aproveitou a solenidade de entrega do título de Homem do Ano, na noite de terça-feira (12/5), na qual foi homenageado, para criticar o governo da presidente Dilma Rousseff (PT) e afirmar que nunca perdeu a credibilidade, em contraponto às gestões petistas.
“Minhas longas nove décadas de vida, e o tanto que delas transmiti ao País, me autorizam a dizer, sem úberes: perdi em vários momentos a popularidade, nunca, contudo, a credibilidade”, declarou FHC em discurso. O título de Homem do Ano foi concedido aos ex-presidentes FHC e Bill Clinton pela Câmara de Comércio Brasil–Estados Unidos, em jantar de gala no Hotel Waldorf Astoria.
Ao receber o prêmio, FHC discorreu sobre a situação econômica brasileira e criticou o aumento de impostos como ferramenta de ajuste fiscal. Segundo o tucano, os recursos públicos federais devem receber melhor investimento em infraestrutura e os programas sociais e de transferência de renda precisam ser reavaliados. “Todos os programas precisam ser melhor executados e melhor avaliados. Tudo isso é possível, urgente e necessário”, disse.
(Foto: João Unes/A Redação)
“Não estou aqui para dar receitas, mas na economia há que se reconhecer que sem produtividade crescente não há transferência de renda duradoura nem expansão econômica que se sustente. Todos sabemos que essa produtividade não é só da mão-de-obra e das empresas, embora mais educação e produtividade façam bem a ambas. Ela depende também do custo-país e da extinção da mordacidade de mais impostos para sustentar uma máquina pública balofa de alguns setores ineficientes."
O peessedebista falou sobre a reação ao descontrole dos mercados internacionais implementada em sua gestão enquanto presidente, dizendo que na época o governo brasileiro lançou programa anticíclico exitoso para que se retomasse o crescimento econômico sustentável. De acordo com Fernando Henrique, paulatinamente, o País retornou à expansão “sem freios do setor estatal, ao descaso com as contas públicas e aos projetos megalômanos que haviam inviabilizado governos no passado”.
“Parece que muitos acreditavam que haveria uma fórmula mágica para crescimento econômico. Expansão do crédito, principalmente público, e incentivo ao consumo. Os investimentos veriam com cavidade e sem que o vigor dos orçamentos, que passou a ser visto como coisa reacionária, fosse o sinal necessário para instigar o espírito animal dos empreendedores”, criticou.
Sem poupar críticas aos governos petistas, FHC aludiu à crise econômica como um “castelo de cartas que se desfez ao sopro da realidade”.
“Tão grave quanto esse desvio das boas práticas foi a pretensão de sustentar o poder a partir de políticas de hegemonia partidária, pregada e posta em ação por grupos que se autodenominam de vanguarda. Uma economia e sociedade moderna requerem interconexão, transparência, dialogo e capacidade de negociação. Os interesses são múltiplos e contraditórios, ou bem são expostos com clareza. O que vale no plano interno, vale também no internacional. Em época de globalização, por mais astuciosos que sejam, os truques para mostrar o que está certo e errado têm vida curta”, atacou.
(Foto: João Unes/A Redação)
Reforma política
O ex-presidente tucano aproveitou o discurso para cobrar uma reforma política no Brasil. “Será que não dá para buscarmos os mínimos inovadores que nos permitam criar um sistema eleitoral e partidário que nos livre de termos mais de 30 partidos e 39 ministérios para saciar a fome de cargos e vantagens? Não daria para criar um amplo sistema de participação popular que atuasse na fase das deliberações das grandes questões? E por que não iniciar um mecanismo de aproximação entre o eleitor e o representante tomando os distritos nos quais se elegem os vereadores?”, questionou.
FHC cobrou ainda mudanças nas regras de financiamento de campanhas eleitorais. “Havendo tanta experiência na limitação de gastos e recursos para campanhas eleitorais, teremos que continuar submetidos ao talento dos grande financiadores ou, o que é pior, à falta de escrúpulos dos que se servem do dinheiro dos contribuintes?”, pontuou.
Aplaudido insistentemente no salão nobre do Waldorf Astoria, Fernando Henrique conclamou a sociedade a continuar as movimentações populares com vistas às renovações política e governamental. “Não percamos, contudo, a esperança. O roteiro para retomada da decência e o crescimento econômico que permita partilhar melhor a riqueza é conhecido e não falta nas novas gerações quem queira palmilhá-lo, nem tampouco nas anteriores quem se disponha a participar. É preciso renovação de verdade. Jovens e as famílias que recorrem às ruas não se sentem politicamente representadas. Dizem que é uma crise da democracia representativa, mas o quer se deseja não é menos, senão mais ampla e adequada representação”, atestou.