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O sertão conectado

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21.04.2015 - 12:18:00

Goiânia – Passei um tempo ali no sertão nordestino, na divisa de Sergipe e Bahia, e pude ver que as pessoas vivem uma mistura do que se perpetua com o que se modifica. A cultura, os hábitos, o sotaque delicioso daquela gente, a informalidade muitas vezes exigida pela própria condição, tudo me fez ser uma goiana deslumbrada diante de tanta novidade.

Dessa vez vi um Nordeste diferente, sem praias, axé, camarões e queijo coalho. Um lugar ainda castigado pela seca, com uma paisagem árida. A maioria das casas tem locais para armazenar água da chuva, mas ela não chega. Há quatro anos não se tem uma colheita satisfatória. As plantações de palma tomam conta das “fazendas”, que na verdade são grandes áreas secas, com casebres isolados. Açudes e bodes completam o quadro.

Mas a paisagem tem um elemento novo: as antenas de TV e as torres de energia e telefonia chegaram ao sertão. Isso é muito mais que tecnologia. Significa que as pessoas não estão mais isoladas. Elas estão, de alguma forma, participando do mundo. Vendo telejornais, filmes, novelas, recebendo informação, comunicação, pontos de vista.

Elas continuam usando transporte clandestino para levar seus ovos e cachos de banana para os parentes do vilarejo vizinho, mas fazem isso com um celular no bolso. Enviam mensagens marcando encontros para não perder viagem.

Não consigo descrever o que eu sentia enquanto via tudo isso acontecendo na minha frente. Se aquelas pessoas pudessem ler meus pensamentos, diriam se tratar de uma “bestagem”. Mas foi emocionante.

Ainda falta muito sim. Mas coisas tão importantes quanto água e comida estão chegando em lugares longínquos, tornando o Brasil um pouco mais amigo e compartilhado. Dentro dos ônibus as pessoas pegam o celular para mostrar às outras fotos de família, conversam com alguém que deixou o lar pra tentar a vida longe, registram momentos.

A comunicação está se fazendo presente onde antes só havia miséria e tristeza. As dificuldades continuam existindo, mas um grande passo para que o povo seja mais informado, educado, consciente e feliz está sendo dado. O conhecimento é libertador. O acesso a ele é um direito. Como muito bem disseram os Titãs, “a gente quer saída para qualquer parte”.

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por Leticia Borges

*Leticia Borges é especialista em Língua Portuguesa, jornalista, professora e palestrante.

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