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A terça-feira na Câmara e no Alemão

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06.04.2015 - 18:44:05

Brasília – Era uma terça-feira. Seguiram para o local de trabalho determinados a cumprir uma promessa de campanha. Determinados a não ouvir as dezenas de entidades civis que entoavam o coro contrário. Determinados a não ser convencidos por um discurso que indicaria a complexidade de algo que insistiam ser simples. Determinados a facilitar que a vingança fosse feita, já que a justiça. Bom, a justiça também é uma coisa mais complicada… Aprovaram a redução da maioridade penal na Câmara.
 
Nesse dia Eduardo Jesus deve ter descido o morro como todos os outros dias de semana para ir para escola. Desceu cruzando a realidade violenta e corriqueira que a ele e a tantas crianças e adolescentes é imputada diariamente. Gente acuada com tiroteio. Gente morrendo sem atendimento médico. Gente sem transporte público. Sem saneamento básico. O cenário de todo dia de quem desce o morro. O cenário de negações onde crescem as crianças.
 
O que os homens de terno decidiam aquele dia na Câmara não lhe interessava. Porque aquilo não interessa a uma criança que vai pra escola, quer voltar, brincar e ver novela com sua mãe. Se assistisse na TV o que aconteceu na Câmara, diria: isso não tem nada a ver comigo. Eu quero ser bombeiro. Não quero roubar nem matar.
 
Não importavam seus sonhos, Eduardo. Não importava quem você era. Assim como nunca importou quem eram Mateus ou Alan. Vocês, para eles, eram potenciais marginais. Suas vidas são matáveis. Não valem capa de jornal. Não valem votos de parlamentares. Não valem minuto de silêncio.  
 
Eles sabem que os jovens representam menos de 1% daqueles que cometem crime no país. Sabem que temos a quarta maior população prisional do planeta e que, ao mesmo tempo, os crimes só crescem. Sabem que o sistema carcerário é precário e ninguém sai melhor dali. Sabem que adolescentes vão conviver com profissionais do crime e saírem prontos para fazer coisa pior.
 
Sabem que o Brasil mata 72 jovens por dia. Mas eles não se importam. Como nunca se importaram com Eduardo. Nem em vida, nem em morte. Um crime foi cometido contra um de nós, cidadãos de bem, detentores de vida não-matável. Que haja punição. Que alivie nossa sede de vingança. A única lógica seca e cega que corta um emaranhado de fatores ignorados.  
 
Eles não estão se voltando somente contra o 1% de jovens entre os criminosos. Voltam as costas para crianças de dez anos que querem ser enxergadas como gente que tem sonho. Deixam de pensar em possibilidades positivas e políticas de inclusão para mantê-los à margem onde sempre estiveram.
 
Dão as costas aos 99% que gritam por desejo de ser humano. De ser bombeiro. De ser inseridos no consumo sem que tenham que roubar alguém. Nenhuma criança cresce com desejo de ser criminosa. Ela quer ser alguém. Quer ser como todo mundo. Como quem vê na TV. Como quem é respeitado onde mora. Que seja por bem ou por mal. Que a vida dure muito ou pouco, não se importam.
 
Quem tem pouco, perdeu muito, não teme por muita coisa. Quem assiste ao vizinho de dez anos ser assassinado, quem perde seus amigos antes dos 20 anos mortos pelas mãos da polícia ou de traficantes não teme ser preso aos 16. Não teme ir para cadeia. O inferno já é um lugar conhecido.
 
Se ali na Câmara, longe das periferias, longe dos morros, aqueles que têm nas mãos o poder de deliberação e de voltar o olhar para os jovens, os abandona; os que carregam fuzis e têm como ofício o encarceramento, não temerão se enrijecer. Na Câmara, eles dão o recado: a gente não quer salvar, quer excluir. Que encarcerem os de 16. Nas periferias, o recado ecoa: estamos legitimados. Nem os de terno querem os salvar. Que morram os de 10.
 
Colocam um contra o outro, como diz os dados da Anistia Internacional. Morre um policial. Matam quatro jovens. Para pobreza que cresce, marginal que se prolifera, aumenta-se o número de tropas. Que se matem. Eles também não se importam com quem está de farda. Dizem se importar com a violência que nos deixa em pânico e, é verdade, é problema sério de todo mundo. Mas não se dispõem a pensar em resolvê-la.
 
Não ousam se aproximar de soluções que vão às raízes. Compram uma bandeira que não resolve o problema, mas afaga a opinião pública. Ressoa bem em discursos. Então aprovam a redução. Seguem para casa para professar sua fé e rezar pelo pobre que, não tinha culpa, e foi morto injustamente. Mas ele não era Eduardo. Com ele não se importam.  
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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