Logo

A saideira, por favor!

WhatsAppFacebookLinkedInX
26.03.2015 - 10:05:00

Goiânia – Então você resolve parar de beber. Por duas semanas, quarenta dias, alguns longos meses. Você fez aquela cirurgia complicada, mas a parte complicada mesmo começa agora, com o pós-operatório e as dezenas de abstinências possíveis e impossíveis. Ou você abraçou a liturgia da Quaresma, esperançoso nas recompensas divinas. Talvez nada disso, apenas criou coragem e decidiu fazer um bom detox sabático nesse corpo que não cessa em transpirar birita. Tudo certo e legítimo como deveria ser.

Mas é aí, meu caro, que se inicia a conspiração cósmica a favor do seu insucesso. As festividades mais bacanas do seu meio social brotam da terra como ervas daninhas. Seus amigos que moram em outro Estado decidem, todos ao mesmo tempo, passar uns dias na sua cidade. Os feriados, que no ano anterior coincidiram quase sempre com os domingos, dessa vez estão todos prolongados aos dias da semana. É claro, portanto, que também já estão agendados os churrascos, surgiram os convites para degustar vinhos na casa de alguém e estão devidamente marcados os encontros familiares nos restaurantes e bares.

É também nesse período de altiva resistência alcoólica que aparecem os melhores convites para eventos da sua rede de relacionamento profissional, que vão desde a inauguração de um novo e descolado pub na cidade até a apresentação da nova carta da adega que você adora. Você recusa um a um, convencendo-se de que alguma divindade está vendo e se compadecendo do seu sofrimento e lhe recompensará ao fim da caminhada. Fé passa a ser a palavra de ordem.

Mas o mundo começa a cobrar a fatura da sua sobriedade. Você vai ao supermercado comprar suco sem açúcar – porque, já que não vai beber cerveja, que esse suplício pelo menos sirva para diminuir aquela barriguinha insistente – e percebe um pequeno alvoroço de pessoas enchendo seus carrinhos com Guiness a 6 pilas. Respira fundo e passa reto, porque essa tentação maligna não lhe atingirá.

Não é fácil ser sóbrio, você constata. Todo o universo conspira contra. Aliás, você descobre a existência de uma lei da natureza que garante atenção exclusiva ao ser humano que decide parar de beber. Amparado nessa norma, o dono do mundo deixa tudo funcionando no piloto automático para se dedicar exclusivamente à estruturação de encadeamentos de fatos que vão testar sua firmeza, sua convicção, sua força de vontade. Uma questão quase pessoal entre vocês.

Não lhe importa se o mau humor atingiu magnitude 9 na escala Richter ou se sua vida social agora se alterna entre o sofá de casa e a poltrona do cinema. Cada evento etílico que você frequenta e permanece sóbrio se torna uma vitória. Vale vidas extras. Acumula moedas no pote que lhe espera ao fim do arco-íris. Bem poderia.

Esse sufoco melodramático que acomete a vida dos novos sóbrios na sociedade tem lá sua comicidade. Mas é preocupante. Não se trata de casos isolados, pelo contrário, arrisco apostar que atinge a maioria das pessoas. Não encontrei pesquisa específica sobre grupos sociais que decidem dar um break temporário na ingestão de cangibrinas, mas o fato é que não é fácil, ao menos no início, para quase ninguém. Nem para quem é obrigado, nem para quem escolhe espontaneamente se abster da taça cheia.

Em conversa com alguns amigos que atualmente enfrentam período de abstinência, percebi que a pior parte dessa história de ficar sóbrio envolve as reuniões sociais. Todos aqueles encontrinhos regados a muitas opções etílicas. Sentar-se à mesa de bar e não beber nada ou ter de se contentar com água, refrigerante, suco, dizem alguns, é tão incômodo quanto esquecer o celular em casa. Ou o sapato ou o sutiã. Fica a sensação de que algo está faltando.

Pessoas com quem convivo disseram conseguir se adaptar ao novo contexto após certo tempo. Outras afirmaram preferir evitar situações propícias ao consumo de álcool por receio de recaídas. Em ambos os casos, é espantoso constatar as interferências psicológica e social dessa substância na vida dos indivíduos. Deixar de beber, mesmo temporariamente, exige esforço, dedicação e equilíbrio. Não é tão simples e, por isso, soa como um alerta.

Apesar de legalizado, não custa nada nos lembrar que álcool é uma droga. E como tal provoca interferências no organismo humano. Uma pesquisa publicada há alguns anos pela revista médica The Lancet, que também foi tema de documentário da BBC, mostrou que o álcool ocupa a quinta posição no ranking das drogas que mais causam dependência no mundo. Fica atrás apenas da heroína, cocaína, barbitúricos e metadona.

Outra informação espantosa vem de dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Segundo a entidade, no Brasil, a média de consumo anual de bebidas alcoólicas é de 8,7 litros ao ano e a cerveja é apontada como a bebida preferida no país. Outro índice alarmante, segundo a organização, é a média de consumo mundial a partir de 15 anos de idade: 6,2 litros de álcool puro por ano.

Mesmo não pertencendo aos Alcoólicos Anônimos, muitos de nós acabam por desenvolver certa dependência do álcool. Uma necessidade mais sutil e discreta, que nos assola não diariamente, não escancaradamente, mas que está presente com garrinhas fincadas no nosso subconsciente comportamental. Uma existência velada.

É preciso reconhecer o tal “beber socialmente” como um tipo de vício. Que pode evoluir a um quadro clínico compulsório ou permanecer numa constância linear por toda a vida do indivíduo. Daí a importância de se estabelecer um diálogo honesto entre a limitação e o autocontrole, colocando os devidos pingos nos is e os imprescindíveis pontos finais onde necessário. Enxergar o álcool como a droga que é, sem tentar atenuar seu poder destrutivo, talvez abra vantagem na relação entre dominante e dominado.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Sarah Mohn

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]

Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]

Meia Palavra
06.10.2026
Primeira temporada de ‘Lanternas’ entrega uma competente trama de detetive com um tempero de super-herói

Terminou neste domingo, na HBO Max, a primeira temporada de Lanternas, uma ousada reimaginação mais madura para os Lanternas Verdes, basicamente os policiais cósmicos do universo DC, muito conhecidos pelos leitores, mas não tão conhecidos pelo grande público. Nesta nova DC cinematográfica capitaneada por James Gunn, havia a dificuldade de introduzir esses personagens sem sobrecarregar […]

Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]

Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]