Lorena Lara
Goiânia – "Sendo mulher, eu considero um paradoxo muito grande receber 'parabéns pelo meu dia'", diz Paula Nogueira. Jornalista e pesquisadora em gênero pela Universidade Federal de Goiás (UFG), ela questiona as comemorações do Dia Internacional da Mulher.
Para Paula, o esquecimento do que gerou a data faz com que o dia seja celebrado "como se nós já tivéssemos conquistado tudo aquilo que era reivindicado por essas mulheres". As mulheres a que Paula se refere são um grupo de costureiras que protestava por melhores condições de trabalho no início da década de 20.
A data do Dia Internacional da Mulher comumente é associada ao protesto de 146 costureiras em 25 de março de 1911. As mulheres, cuja maioria era jovem e imigrante, protestavam no oitavo andar do prédio da Triangle Shirtwaist Factory, em Nova York, e acabaram trancadas em um cômodo, que pegou fogo. Incapazes de sair dali porque as portas estavam trancadas, as manifestantes morreram queimadas ou se jogando pelas janelas.
Autoridades socorrem mulheres feridas em 1911 (Foto: domínio público)
No entanto, este não foi o primeiro protesto organizado por mulheres em busca de melhores condições de trabalho. Em 1909, uma manifestação que ficou conhecida como "The Uprising of 20.000" reuniu trabalhadoras da mesma Triangle Shirtwaist Factory durante reivindicações que duraram catorze semanas.
A reação da fábrica, nesta primeira situação, foi a de trancar suas operárias do lado de fora do prédio. E o protesto foi recebido com violência – enquanto a polícia prendia manifestantes, os donos da empresa contraram homens para bater em quem reivindicava.
Em homenagem a esta primeira data, então, foi comemorado o primeiro Dia da Mulher, em Nova York. A celebração foi organizada pelo Partido Socialista da América. Na época, mulheres recebiam cerca de um terço do salário que era pago aos homens. Hoje, exatos 106 anos depois, mulheres continuam recebendo menos.
Salários
Em relatório divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) na última sexta-feira (6/3), dados apontam que o salário médio das mulheres corresponde a 77% do que é pago aos homens. Essa diferença, segundo o documento, tende a ser maior conforme os salários ficam mais altos.
A questão recentemente foi pauta em todo o mundo, quando a atriz Patricia Arquette, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo filme Boyhood, usou seu discurso na cerimônia para reivindicar salários iguais. "É nossa hora de ter igualdade de salários de uma vez por todas e direitos iguais para as mulheres", afirmou, ovacionada pela plateia.
Patricia Arquete durante seu discurso no Oscar (Foto: divulgação)
A diferença salarial afeta tanto mulheres com ou sem filhos, mas há uma observação no caso das que já são mães – elas recebem menos conforme o número de filhos é maior. "Em muitos países europeus, por exemplo, ter um filho tem um efeito reduzido, mas as mulheres que têm dois filhos e, especialmente, as que têm três são fortemente penalizadas em termos salariais", afirma a OIT.
O relatório ainda contém uma observação preocupante – para que a diferença salarial entre homens e mulheres seja extinta, ainda serão necessários mais 70 anos. O documento, no entanto, não se limita à apontar as diferenças salariais. "Mulheres continuam a ser confrontadas em situações de discriminação e desigualdade no trabalho".
Respeito
Maria Souza* relata seu caso. Ela, que trabalha em uma agência de publicidade em Goiânia, diz que não há diferenças salariais na empresa, mas que as mulheres são tratadas de maneira diferente pelos colaboradores do local. "Tem homem que fala mais alto com as mulheres e com os caras é bem amigável, principalmente na hora de resolver problemas", diz.
Piadas machistas e julgamentos fazem parte do dia-a-dia, revela. "Muita coisa eu faço de conta que não estou escutando, outras vezes faço cara feia e me posiciono", diz Maria. Para ela, o Dia Internacional da Mulher deve ser voltado para a luta e reflexão, não para ganhar flores e presentes. "A gente não precisa disso, a gente precisa de respeito, de salários melhores, de segurança. O dia deveria servir para essa reflexão, do que conseguimos e do que a ainda falta conseguir", ressalta.
Paula também pontua as conquistas que faltam às mulheres. "Ainda hoje temos desigualdade salarial, ainda hoje um empresário prefere contratar homens porque não engravidam e não vão gerar ônus para a empresa ao ficarem afastados por licença maternidade. Ainda hoje enfrentamos assédio moral e sexual e nos calamos porque precisamos do emprego", enumera a pesquisadora.
Celebração
Ela ainda critica as ações publicitárias ou de empresas que reforçam os estereótipos de gênero. "Por que insistem em premiar mulheres com maquiagem e flores, ao invés de descontos em cursos profissionalizantes ou bolsas de estudo?" questiona.
Para Paula, entregar flores e dizer que são símbolo da delicadeza da mulher é errado. "Também entregam mensagens agradecendo por serem mães e esposas. Nem toda mulher quer ser mãe, nem toda mulher quer se casar", explica. Segundo ela, a data deveria ser lembrada sim, mas não para simplesmente parabenizar as mulheres por serem mulheres. "É preciso pensar nos fatores que ainda tornam nossa luta necessária", conclui.
*Maria Souza é nome fictício.