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Sobre o direito de ter filho…

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23.02.2015 - 17:59:12

Brasília – Histórias de mulheres ao meu redor. Que também estão ao seu. Acontece a todo momento e você pode substituir minhas mulheres por aquelas da sua convivência. Essa aconteceu há poucos dias. 

Uma professora universitária, no alto de seus 30 e tantos anos de idade e maturidade, dá a luz ao seu segundo filho. Quando deu a luz ao seu primeiro, não tinha mestrado ainda. Dessa vez, mestre e professora, cursa o doutorado. Seria motivo para celebrarmos: mais uma mulher que conquista o espaço acadêmico e consegue conciliar, com competência, sua decisão e vontade de ser mãe. Não foi o que pensou seu colega. “Que absurdo! É muita irresponsabilidade ter um filho cursando o doutorado”.

Ela é casada, muito bem formada, autônoma e madura suficiente para ter seu filho. Mas também aconteceu com outra, que era jovem, com menos maturidade, ainda conquistando autonomia, graduação por ser concluída e não era casada. Mas teve a mesma vontade e coragem em assumir a gravidez. "Uma irresponsabilidade" ouviu tantas vezes quando assumiu a gravidez. Contra a maré de preconceitos e terríveis julgamentos, com apoio ínfimo do pai da criança, conquistou sua autonomia, maturidade, graduação, casamento com outro rapaz e a criança é linda, alegre e doce. 

Mas também aconteceu com outra. Sem graduação, pobre, empregada doméstica, teve filho com um. Depois dois com outro. No quarto, de outro pai, enfrentava o árduo peso não só da tarefa de criar só as crianças sem apoio de nenhum dos pais, como o crescente julgamento que lhe inferiorizava. Não queria mais limpar chão e queria garantir um futuro melhor a ela e aos filhos. 

Trabalhava um período, estudava no ensino regular em outro e no outro fazia curso técnico, que tinha ganhado bolsa. Seria motivo para celebrarmos: as mulheres que têm a chance de deixar de ser domésticas, como suas mães, e terem acesso ao estudo e a um mercado de trabalho diferente. Mas ela foi julgada por ter se afastado de suas crianças e de seu dever de educá-las enquanto passava o dia todo na rua trabalhando e estudando.

Também aconteceu com outra professora universitária. Ela, diferente das mulheres acima, optou por não ter filho. Fez seu mestrado, doutorado, pós doutorado e decidiu desfrutar com plenitude a vida acadêmica e outras possibilidades que o tempo sem filho e sem marido lhe proporcionou. No alto de seus 50 e poucos anos se casou. Até aqui, enfrentou o forte julgamento e piadas perversas de ser tiazona solteira e, pior, de negar sua "essência feminina". Como religiosa fervorosa, ousou não seguir os mandamentos bíblicos de que devemos nos multiplicar. 

Também aconteceu com uma garota de 19 anos. Essa não conheci, mora na região da grande São Paulo. O pai da criança não quis ter o filho. Ela não se sentiu preparada para assumir a maternidade sozinha, nem os julgamentos que lhe acompanhariam. Tomou quatro comprimidos de Cytotec, remédio para úlcera que pode causar perda do útero e até a morte. Chegou ao hospital com hemorragia. Aquele único em que ela confiava naquele momento, o médico, lhe entregou à polícia.

As minhas três primeiras mulheres tiveram a coragem de ter filho. Outra teve a ousadia de não ter. Essa garota teve a decisão de interromper a gravidez. No fim das contas, elas enfrentaram e enfrentam o mesmo problema: a decisão delas esteve sempre em xeque. O que fazer de sua vida, de seu corpo, de seu futuro, da educação de seus filhos esteve sempre subordinado aos ditames de outrem que não elas. 

Se as que decidiram ter seus filhos ousassem fazer aborto, enfrentariam não só a tremenda dor física, emocional e espiritual (para algumas), mas o julgamento ainda mais pesado de serem consideradas assassinas. Se não fossem presas ao encontrar alguém que se considera um ser supramoral, como o médico de São Paulo, que coloca de lado sua ética profissional em nome de uma moralidade perversa. Ou ainda, o que é muito comum entre as mais pobres, se não morressem em clínicas clandestinas ou sem tratamento adequado depois de tomar Cytotec falsificado.

O que ocorre é que toda e qualquer decisão sobre a maternidade, de ter ou não ter filhos e de interromper uma gravidez, são sempre balizadas por uma moralidade que é expressa desde as expectativas, cobranças, opressões, até as leis. O resultado vai de constrangimentos diários a estatísticas crescentes de mulheres mortas por abortar sem o devido tratamento.

Estas decisões estão sempre sob os mesmos julgamentos que desconsideram não só a autonomia e decisão feminina, mas a pluralidade das mulheres expressa na singularidade de cada uma que as fazem tão distintas umas das outras.

São sempre julgadas por um dedo apontado pertencente a alguém que nunca estende a mão. Os pais dos filhos nascidos e não nascidos permanecem blindados das tragédias sobre os corpos e das dificuldades das vidas das mães e das crianças.  

Elas são responsabilizadas pela tragédia de seus corpos quando não acolhem o tratamento apropriado quando decidem não ter os filhos. Também são responsabilizadas quando a educação de seus filhos não corresponde ao que a sociedade espera, desconsiderando que a educação de um ser jamais pode ser imputada a duas quanto menos a uma pessoa. Quando viemos ao mundo, já viemos entre outros seres. É nesse compartilhamento de espaços em que devemos crescer e só podemos nos tornar gente se nossa educação também é compartilhada.

O que as histórias dessas mulheres – que somos todas nós – nos mostra é que por trás da discussão anti-aborto reside a mesma discussão pela decisão de ter filhos. O que está em jogo, no fim das contas, não é a falácia de preservar vida. Mas as decisões das mulheres que são sempre questionadas e a culpabilidade imputada a elas por todas as desgraças que podem decorrer dessas mesmas decisões.   

 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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