Lorena Lara
Goiânia – Ituglanis boticario é o nome científico da nova espécie de peixe descoberta em Goiás. O animal foi encontrado na Gruta da Tarimba, em Mambaí (GO), a 500 km de Goiânia.
Trata-se de um peixe troglóbio, ou seja, que vive exclusivamente em ambientes subterrâneos, como cavernas. A espécie não passa dos 10 centímetros, possui bigodes alongados, olhos pequenos e pouca pigmentação. Seu corpo apresenta cores claras e o peixe ainda possui pequenos dentes próximos às brânquias, usados para evitar que seja levado por correntezas.
A espécie pertence ao gênero Ituglanis, que concentra apenas peixes que vivem em cavernas. Ao contrário de animais que vivem em mares e rios, espécies de Ituglanis preferem ficar entocadas. "Isso acontece por terem menos alimento dentro das cavernas, então precisam procurar mais", explica o integrante da equipe de pesquisa, Pedro Rizzato.
A visão dos peixes de cavernas também é menos desenvolvida do que outras espécies. No entanto, os animais têm compensação sensorial e percebem melhor odores, além de possuir canais sensorias na pele e poderem estar alertas para qualquer distúrbio na água.
Pesquisa
Segundo a professora doutora Maria Elina Bichuette, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), é importante investir em pesquisa ambiental. "Nosso país tem uma riqueza natural muito grande e temos ecossistemas que estão sendo destruídos antes mesmo de serem conhecidos, por isso é extremamente importante incentivar novas pesquisas", diz.
Maria Elina destaca que o Brasil tem potencial para muitas outras descobertas de espécies troglóbias. "Atualmente, temos em torno de 10 a 12 mil cavernas cadastradas, mas podemos chegar a mais de 100 mil", diz.
(Foto: Pedro Rizzato)
Já Pedro Rizzato explica que a região da Tarimba foi identificada como um hotspot de fauna subterrânea brasileira. "Hotspot" é o nome dado às áreas que concentram alto nível de biodeiversidade e que já perderam mais de 75% de sua vegetação original.
Conservação
"Com a análise que fizemos, percebemos a importância da conservação da região e enviamos uma carta ao ICMBio, propondo a criação de uma Unidade de Conservação de Proteção Integral para proteger o local", explica Pedro. O ICMBio é, hoje, o órgão responsável pela gestão de unidades de conservação federais no Brasil.
A nova espécie já pode ser considerada ameaçada de extinção, tanto por ser encontrada apenas na Gruta da Tarimba, como também pela degradação do ambiente em torno da caverna, explorada para dar lugar a pastagens. A urina do gado da região também afeta o habitat do
Ituglanis boticario, aumentando a concetração de ureia e amônia na água.
"A deterioração diminuiu a capacidade desse ambiente de drenar água para dentro da caverna, o que reduz a quantidade de alimento disponível em seu interior", explica Maria Elina.
Cadeia alimentar
A pesquisadora destaca ainda o papel biológico do peixe na caverna. A espécie é predadora no topo da cadeia alimentar do local. "Ele é carnívoro, alimenta-se de invertebrados como larvas e besouros. Se você retirá-lo da caverna, criará grande desequilíbrio, pois eles exercem controle populacional de diversas espécies", ressalta.
Maria Elina ressalta que nas duas grutas onde o Ituglanis boticario foi encontrado (Tarimba e Nova Esperança), ele "reina soberano". "Não existem outros tipos de peixes ali. Por isso, se o Ituglanis não for conservado, todo o ecossistema estará em risco e poderá ser perdido", alerta a pesquisadora.