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Defesa do indefensável

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09.12.2014 - 12:45:52

Talvez o nobre leitor de A Redação não saiba, mas trabalho na Rádio Interativa onde sou comentarista do programa Papo Cabeça. No final da semana passada, entrei em um debate com minha queridíssima amiga Suzy Vieira (ou Tucker, ou Sublime – ao gosto do freguês), que reside já há alguns anos nos EUA, sobre o caso de Eric Garner.

 

Se você não está ligado, a morte desse cara desencadeou essa onda de protestos que está rolando agora nos Estados Unidos e que tem como maior símbolo a frase “I can't breath” – a última pronunciada pela vítima.

 

Vamos a um breve resumo. Garner, o homem morto, tinha 43 anos, era negro e trabalhava fazendo bicos pelas ruas de Nova Iorque. Ultimamente, se dedicava à venda de cigarros nas calçadas da metrópole, atividade considerada irregular. Já havia sido detido 31 vezes por esse ilícito. Estava visivelmente acima do peso.

 

Em julho desse ano, foi abordado pelo policial Daniel Pantaleo, branco, e ofereceu resistência à ação. Recebeu uma chave de braço no pescoço, foi derrubado ao chão, perdeu o ar e morreu devido a um ataque cardíaco dentro da ambulância que foi chamada para atendê-lo. Há poucos dias, o júri popular decidiu não indicar o policial pela morte de Garner. Isso provocou um levante por todos EUA, sendo que os principais foram em Nova Iorque, Chicago, Miami, Boston e São Francisco.

 

Detalhe mais que relevante: existe uma resolução da polícia de Nova Iorque que proíbe abordagens usando a chave de braço por parte dos homens da lei.

 

Voltando ao programa de rádio, quando esse assunto veio à tona, defendi que se o júri não agiu com racismo como acusam os manifestantes e defensores dos direitos civis, ao menos foi equivocado em sua decisão por não levar em conta que a ação foi desproporcional e atentou contra o regulamento da polícia novaiorquina. Suzy discordou. Ela defendeu a ação policial com argumentos que, a meu ver, são a mais pura defesa do indefensável.

 

Entramos em um debate mais ou menos assim:

 

– Mas ele já tinha 31 autuações pela mesma atividade.

 

– Mas mataram o cara, Suzy.

 

– Mas ele ofereceu resistência à polícia.

 

– Mas o policial não poderia dar a gravata no cara segundo a própria polícia de Nova Iorque.

 

– Mas não se trata de racismo.

 

– Tudo bem, pode até ser, mas se trata da morte de um cara em uma ação desproporcional.

 

É claro que não chegamos a consenso algum. Nem é esse o intuito do programa. Mas me impressionou a volta que Suzy dava para defender algo cabal que, repito, ao menos a meu ver, invalida qualquer outro argumento: o cara morreu. Ponto. E o pior, com um tipo de abordagem que é vetado. E o pior de tudo, sem estar armado ou com algum comportamento que justificasse a imobilização de alguém obeso.

 

Não é por menos que I can't breath se tornou o lema dos manifestantes. Se até Suzy, minha amiga de longuíssima data, brasileira de nascença e americana por opção familiar, entende razões para matar alguém com uma gravata, é de me faltar o oxigênio. Eu também não consigo respirar.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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