Catherine Moraes
“Em 2011, 28 pessoas já morreram em acidentes envolvendo ônibus do transporte coletivo apenas em Goiânia. Os números se aproximam de 2010, quando as mortes somaram 34. Não quero apenas punir motoristas, quero enumerar os motivos pelos quais esse índice está alarmante. O estresse e a sobrecarga de trabalho estão, com certeza, entre as principais causas.”
Waldir Soares assumiu a DICT há pouco mais de dois meses e desde então iniciou um levantamento sobre mortes resultantes de acidentes com ônibus do transporte coletivo da capital. Na manhã desta terça-feira (8/11) os depoimentos começaram a ser coletados e a investigação tomou direcionamento. De acordo com o delegado, o estresse é apontado como a principal causa dos acidentes, tanto por motoristas quanto por representantes de sindicatos. O fator, entretanto, não é novo. A reclamação persiste desde a extinção dos cobradores de ônibus, em 2000.
Dois motoristas já foram ouvidos, assim como o presidente do Sindtransporte, Carlos Alberto Luiz. Os depoimentos continuam e ainda nesta semana o sindicato que representa as empresas deve ser convocado assim como outros profissionais.
Sob barulho intenso do motor, a vibração do ônibus, o calor, o trânsito intenso e a fumaça, o motorista exerce inúmeras funções. Se um cadeirante vai entrar é ele quem ajuda, opera rádio, GPS, e precisa ser pontual. O profissional presta atenção no trânsito, monitora as portas, orienta passageiros e, segundo o presidente do Sindcoletivo, Carlos Alberto Luiz, a sobrecarga de funções ainda não é o principal problema. “Em algumas linhas o motorista trabalha quase 10 horas por dia. Se um condutor normal, que vai para o trabalho e leva as crianças para a escola já fica nervoso e inclusive mata no trânsito, imagine o que é fazer o serviço por 10 horas diárias”, pontua Carlos.
Para o delegado, é preciso um treinamento adequado para os motoristas já que o faturamento das empresas é alto. “Estamos falando de profissionais, e por esse motivo a preocupação é grande. São 28 mortos por motoristas profissionais. Eles não sabem lidar com idosos, crianças, surdos, mudos. Não têm nenhum treinamento. Para onde vai o dinheiro arrecadado pelas empresas, que não investem no quadro de funcionários?”, questiona o delegado Waldir.
Fiscalização
Uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) foi aberta no início do ano passado e um depoimento causou polêmica. Em uma sessão, Carlos Alberto Luiz disse que os usuários do transporte corriam riscos de morte devido a sobrecarga de trabalho dos motoristas.
No final de 2010, uma fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego em Goiás (SRTE) verificou situação de trabalho exaustivo em cinco empresas. A ação aconteceu após a superintendência receber mais de 15 denúncias de motoristas em menos de dois meses. Até agora, não há na superintendência informações sobre o encaminhamento das denúncias feitas.
Raiva acumulada
Se dirigir um carro em Goiânia não é facil, ser usuário do transporte coletivo é ainda pior. Ônibus atrasados, superlotados, “DJ’s” que usam o celular como se fosse um rádio coletivo e nada de bancos para todos se assentarem. O motorista, como representante da empresa em que trabalha, sofre as consequências. Presidente do Sindcoletivo, Carlos Alberto Luiz afirma que não raramente motoristas são xingados e toda a raiva dos usuários é descarregada sobre o condutor.
Levantamentos da DICT apontam que diariamente 1 milhão de pessoas utilizam os ônibus da Capital. Isso significa que cerca de R$ 2,5 milhões são arrecadados diariamente levando em consideração que a passagem custa R$ 2,50. “Esses números se referem apenas aos pagantes. Não estão inclusos aí os estudantes, idosos ou deficientes. O Estado precisa perceber que os usuários são consumidores e portanto, têm direito a um serviço de qualidade. Para onde vai esse dinheiro?”, indaga Waldir.
Mortes
A DICT numerou as mortes mas não especificou os acidentes. Apesar disso, alguns casos ganharam destaque na mídia. No dia 29 de abril, Benedito Sobrinho Castro, 48 anos, morreu após ser atropelado na altura da Estação Capuava, entre os terminais Padre Pelágio e Dergo. O motorista se apresentou espontaneamente ao 5º Distrito Policial, em Campinas, e foi liberado depois de prestar depoimento.
Em 17 de julho, Gabriel Henrique da Costa, 7 anos, foi atropelado ao tentar desembarcar no Terminal Vera Cruz. A roda do veículo passou por cima da bacia do garoto. Encaminhado ainda consciente para o Hugo, ele passou por cirurgia, mas veio a óbito dois dias depois, em 19 de julho, com uma parada cardiorrespiratória.
No dia 12 de julho, a diarista Maria Zumira Gerolineto, 57, tentava entrar em um ônibus no Terminal Garavelo. O coletivo já estava cheio e o motorista fechou a porta. Quando o veículo saiu do lugar, a diarista caiu e foi atropelada. Ela morreu no dia 20 de julho.
O coletivo partiu com a porta traseira ainda aberta, antes mesmo de Valdete conseguir se afastar. Suas pernas foram esmagadas pelas rodas do coletivo e ela morreu antes mesmo da chegada das viaturas de socorro.