A Redação
São Paulo – Na primeira pergunta do debate da TV Globo, o candidato presidencial Aécio Neves (PSDB) questionou a candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT) sobre a denúncia da revista Veja de que ela e o ex-presidente Lula teriam conhecimento sobre o suposto esquema de desvios na Petrobras. Para abrir a pergunta, Aécio afirmou que essa foi "a campanha mais sórdida" da história democrática do País e voltou a colar sua imagem ao candidato morto em acidente aéreo, Eduardo Campos (PSB), e a Marina Silva (PSB), dizendo que foram todos vítimas de calúnias e difamação promovidas pelo PT.
Dilma respondeu em linha semelhante ao que havia feito ao longo do dia, no programa eleitoral e nas redes sociais. Disse que a revista Veja faz oposição sistemática a seu governo e que seus eleitores sabem disso. "Essa revista tenta dar golpe eleitoral e não é a primeira vez. O povo não é bobo, candidato, o povo sabe que está sendo manipulada a informação porque não há nenhuma prova", afirmou Dilma, que acusou Aécio de "endossar" a estratégia da revista. Dilma repetiu ainda que irá à Justiça para se defender.
Aécio, por sua vez, respondeu embasando a denúncia da reportagem, argumentando que a delação premiada, por meio da qual surgiu a informação questionada por Dilma, só traz benefício ao delator se forem apresentadas provas. O tucano citou também reportagem da revista IstoÉ que fala do nível da campanha presidencial. Aécio emendou mais reclamações contra a campanha petista, citando carros de som no Rio que teriam divulgado que quem votasse 45 seria automaticamente desligado do Bolsa Família.
Dilma usou uma de suas expressões marcantes nos debates e se disse "estarrecida" com o fato de Aécio achar que ela cercearia a imprensa. "Eu, na minha vida pública, jamais persegui jornalistas. Tenho respeito pela liberdade de imprensa porque vivi tempos escuros deste País", afirmou Dilma em crítica velada ao tucano. Dilma disse ainda, em referência à Veja e à IstoÉ, que todos sabem "pra quem elas fazem campanha".
Em sua vez, Dilma perguntou se Aécio concorda com a afirmação de Armínio Fraga de que o salário mínimo está "alto demais". O tucano respondeu que tem "orgulho" do seu futuro ministro da Fazenda. O atual governo, afirmou, "afugentou" os investidores. "O governo do PT fracassou na condução da economia e deixará uma inflação saindo de controle, um crescimento pífio".
Cuba
O tucano questionou investimento de R$ 2 bilhões em um porto em Cuba. Dilma disse que seu governo não tem nada a esconder e explicou que a empresa brasileira financiada para a construção gerou 456 mil empregos no Brasil e destacou ainda a taxa de desemprego do governo do PSDB. O tucano disse que no empréstimo para Cuba, o financiamento foi de 25 anos, prazo maior, e com menos garantias. A petista disse que o governo FHC fez o mesmo empréstimos.
Aécio Neves (Foto: Marcos Fernandes/Coligação Muda Brasil)
Dilma questionou sobre construções populares. O tucano afirmou que a campanha do PT está fazendo "terrorismo" em relação ao Minha Casa, Minha Vida e prometeu manter e aperfeiçoar o programa. "O que não vamos fazer é o bolsa empresário", rebateu Aécio. A tucana disse que ele não conhece bem o programa. "Vocês falaram o tempo inteiro que os bancos públicos iam ser redefinidos", afirmou a petista, dizendo que o PSDB sempre foi contra os subsídios aos programas sociais.
O tucano disse que o PT deixará inflação alta e crescimento baixo. Dilma disse que o PSDB "quebrou" a Caixa e o BNDES e que é seu "compromisso o controle da inflação". "Quem não mantinha era o governo FHC, que nas crises aumentava o desemprego e achatava os salários".
Aécio disse que a explicação de Dilma era muito confusa. "Fizemos o que precisava ser feito", disse, elogiando FHC. "Quem tem responsabilidade e compromisso com controle da inflação somos nós", afirmou, com críticas à gestão dos bancos públicos.
A petista perguntou se Aécio manterá o programa Pronatec. O tucano questionou as estatísticas do PT. "Aliás, seu governo é o governo das estatísticas desde que elas lhes sejam favoráveis", criticou. Prometeu aumentar a carga horária do Pronatec e destacou a importância de o aluno concluir o ensino médio. A petista disse que em 8 oito anos o PSDB fez 11 escolas federais e o PT 422 em 12 anos. "Vocês jamais tiveram um programa dessa dimensão", disse.
Indecisos
Com o formato diferenciado deste último debate presidencial, os candidatos ficam frente a frente com os eleitores indecisos durante as perguntas do público. Eleitor perguntou o que a petista fará em relação ao alto preço dos aluguéis. Dilma fez a defesa do programa Minha Casa, Minha Vida, explicando as condições para aquisição da casa própria, prometendo mais 3 milhões de unidades para o próximo governo e ampliando as faixas de renda. "Tenho certeza que você vai poder ser uma das pessoas beneficiadas caso seja sorteado", afirmou.
Na réplica, Aécio disse que ao contrário do que o governo diz, não foram entregues 3 milhões de habitações, mas sim metade disso. Prometeu ampliar o programa Minha Casa, Minha Vida para que os brasileiros tenham "moradia digna". Dilma disse que há 1,8 milhão de casas em construção e prometeu contratar, até o final do ano, 3,7 milhões de unidades.
Eleitora pergunta o que Aécio pretende fazer para melhorar a qualidade do ensino. O tucano responde ter "coragem" para enfrentar o problema. "Consegui fazer com que Minas tivesse a melhor educação do Brasil, queremos levar isso para o Brasil", disse, acrescentando que começará pelas creches, flexibilização dos currículos e valorização do professor.
Na réplica, Dilma disse ter "um grande compromisso com creche e pré-escola". Prometeu construir mais 4 mil creches a fim de universalizar a pré-escola a crianças de 4 e 5 anos. Destacou destinação dos royalties para a área. Aécio afirmou que as 6 mil creches prometidas não foram construídas.
Corrupção
A eleitora indecisa perguntou à petista como pretende acabar com a corrupção, com punição dos culpados. Dilma disse que a lei é branda e que "na hora de punir o corrupto se evade". Citou propostas, como perda de bens caso servidor não comprove origem. "Nós vamos ter um conjunto de medidas para que haja a punição daquele que foi o corrupto e o corruptor".
Na réplica, Aécio disse que os brasileiros não "aguentam mais" novos casos de corrupção que não são punidos. "Não houve preocupação do PT no combate efetivo da corrupção". A maior medida contra a corrupção, afirmou, é tirar o PT do poder. Dilma respondeu que o PSDB "engavetava" denúncias. "Eu nunca compactuei com corrupção", completou a petista.
Dilma Rousseff (Foto: Ichiro Guerra/Dilma 13)
Eleitora perguntou o que fazer em relação as aposentadorias com o aumento do número de idosos. Aécio respondeu que irá rever o fator previdenciário, mecanismo que diminui pensões de aposentadorias precoces. Também propôs incluir cesta de medicamentos no valor das aposentadorias.
Dilma afirmou, na réplica, que o fator previdenciário foi criado pelo governo do PSDB. Defendeu discussão aberta com as centrais sindicais a fim de se chegar a um acordo. O tucano disse que o fator foi criado num "momento de aguda crise" e não foi derrubado mais tarde porque o ex-presidente Lula impediu.
No terceiro bloco, os candidatos voltaram ao confronto direto. Primeiro a perguntar, Aécio falou de atrasos em repasses federais para a assistência social e perguntou o que acontece no governo. A petista citou o Bolsa Família e disse não ter dúvida que o governo dela não atrasa programas sociais. "Nunca atrasou nem contingenciou", disse, dizendo que aplica R$ 4,2 bi em apenas 2 meses no programa, valor de todo o governo FHC. Na réplica, o tucano disse que os repasses do Fundo Nacional de Assistência estão atrasados, o que, segundo prometeu, não acontecerá no seu futuro governo.
Água em SP
A petista disse ser fundamental planejar e perguntou se houve erro no caso da falta de água em São Paulo, estado governado pelo PSDB. Aécio respondeu que o erro veio do governo federal e que o governo paulista "buscou fazer o que estava às suas mãos". Citou a reeleição de Geraldo Alckmin e disse que "infelizmente" não teve a ajuda da Agência Nacional de Águas. Criticou depois o aparelhamento do governo.
Na réplica, Dilma disse que "a água é responsabilidade dos estados" e que a União deve ser apenas parceira. "É uma vergonha" a falta de planejamento em São Paulo, afirmou a petista, que falou em "meu banho, minha vida".
Aécio pediu que Dilma respondesse sobre o mensalão e se José Dirceu é um herói nacional para ela. A petista rebateu que até hoje o mensalão tucano não foi julgado. "É necessário dizer que eles foram condenados e foram para a cadeia. O mensalão do seu partido não teve condenados nem punidos", afirmou a candidata.
"A senhora era a dona da mesa e da gaveta" desse governo, disse Aécio, que falou que é preciso aguardar o julgamento do mensalão mineiro. Lembrou que o principal acusado do mensalão mineiro fez parte do governo, Walfrido dos Mares Guia. Dilma disse que o PSDB "engavetou" todos os processos.
Em sua vez de perguntar, Dilma falou do Pronatec, ProUni e Fies e questionou por que o PSDB era contra o Enem. Aécio repete que eleitor vai às urnas sem saber o que Dilma pensa sobre o mensalão. "Nós sempre valorizamos a educação", disse, acrescentando que ProUni foi inspirado em programa tucano e propôs apoio para jovens que completarem o ensino médio.
Na réplica, Dilma afirmou que "acreditou na gestão" de Aécio até ele transformar Minas no terceiro estado mais endividado do país. Ela acusou o PSDB de nunca ter sido favorável ao Prouni e ao Enem. Aécio disse que a petista "ofende a realidade de Minas Gerais" e lembrou que seu governo teve todas as contas aprovadas por unanimidade pelo Tribunal de Contas.
Quarto bloco
No último bloco, os eleitores voltaram a perguntar. O primeiro disse que a região onde mora está tomada pelo tráfico de drogas e quis saber de Aécio suas propostas para a segurança. O tucano defendeu uma nova política de fronteiras e o fim do contingenciamento do orçamento para segurança pública. Prometeu ampliar casas de recuperação para dependentes químicos e uma "profunda" reforma no Código Penal a fim de punir crimes de forma mais dura.
Dilma afirmou que o grande desafio do Brasil é combate à violência e às drogas. Disse que governo atuou nas fronteiras. Para combater o crime, apontou ser fundamental parceria da União com estados. Aécio disse que fronteiras estão "desguarnecidas" e criticou contingenciamento de recursos pelo governo federal.
William Bonner (Foto: reprodção TV Globo)
Eleitora disse que jovens são mortos por causa de drogas e questionou qual proposta pode melhorar essa realidade. Dilma disse ter aplicado R$ 17 bilhões no combate ao crime organizado e tráfico de armas e lembrou dos Centros de Comando e Controle criados para a Copa do Mundo.
Aécio disse que governo age de forma "desarticulada" e propôs "mutirão de resgate", para que jovens completem ensino fundamental e médio, com bolsas, além de poupança para estudantes. Dilma disse querer que indecisos melhorem de vida em 2018. Propôs prevenção e tratamento para tratar do problema das drogas.
Eleitora disse que está fora do mercado devido a idade. Aécio afirmou que o país "parou de crescer", por isso não gera empregos qualificados. Destacou o fim de mais de um milhão de postos na indústria e disse que o atual governo não gera confiança dos investidores. "Por isso o Brasil precisa de um governo novo e com credibilidade" para resgatar empregos.
A petista sugeriu cursos no Senai para pessoas conseguirem emprego melhor e disse que taxa de desemprego é de 4,9%. Por fim, defendeu o Pronatec, "para que você tenha emprego adequado à sua situação". O tucano disse que o que vem acontecendo com investidores afetam a vida dos trabalhadores. Defendeu política transparente para melhorar a economia.
Considerações finais
A candidata Dilma Rousseff afirmou que o Brasil "cresce e faz todas as pessoas crescerem com olhar especial para jovens e mulheres". Disse que não vai permitir que a qualidade de vida das pessoas "volte atrás". "Não vamos permitir que nada nem ninguém, nem crise nem pessimismo tire de você o que você conquistou".
Aécio disse que chega ao final da campanha honrado e enfatiza importância da mudança para o país. Lembrou da caminhada que fez há 30 anos ao lado de Tancredo Neves. Prometeu subir a rampa do Palácio do Planalto com a mesma generosidade que o avô conduziu o país à democracia.