Dallas (EUA) – O Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (CDC) confirmou na tarde deste domingo (12/10) que uma auxiliar de enfermagem de Dallas (Texas) é a primeira pessoa a contrair o vírus Ebola em território norte-americano. Ela foi infectada ao tratar de um paciente hospitalizado, apesar de usar o traje e os equipamentos de proteção recomendados.
O médico Tom Frieden, chefe do CDC, disse que o diagnóstico mostra que houve uma falha no protocolo de segurança e que todas as pessoas que trataram o paciente Thomas Eric Duncan, que morreu na última quarta-feira (8/10), são consideradas potencialmente expostas. A auxiliar de enfermagem usava um avental de proteção, máscara, proteção para os olhos e dois pares de luvas ao tratar de Duncan quando ele foi pela segunda vez ao Hospital Presbiteriano do Texas, disse o médico Daniel Varga, da empresa Texas Health Resources, que administra o hospital.
Frieden disse que a trabalhadora não foi capaz de identificar qualquer falha no protocolo de segurança que poderia ter levado à contaminação. Duncan chegou aos EUA proveniente da Libéria, seu país natal, em 20 de setembro. Ele procurou atendimento médico no dia 25/9, por ter febre e dor abdominal. Apesar de ter dito a uma enfermeira que havia acabado de chegar da África, Duncan foi mandado para casa.
Voltou ao hospital no dia 28/9 e foi colocado em isolamento por suspeita de Ebola. A Libéria é um dos três países africanos mais afetados pela epidemia de Ebola, que já matou mais de 4 mil pessoas, praticamente todas na África Ocidental, de acordo com dados divulgados na sexta-feira pela Organização Mundial da Saúde (OMS, da ONU). Os outros países mais afetados são Serra Leoa e a Guiné.
Monitoramento
O Departamento de Saúde do Texas está monitorando cerca de 50 pessoas que tiveram ou podem ter tido contato com Duncan depois de ele ter apresentado os primeiros sintomas. Segundo Varga, a auxiliar de enfermagem afetada relatou febre na sexta-feira (10/10), como parte de um regime de automonitoração requerido pelo CDC. Um teste preliminar, feito no sábado (11/10), indicou que ela tinha o vírus Ebola, o que foi confirmado neste domingo (12/10) pelo CDC.
Varga disse que há outra pessoa em isolamento e que o Hospital Presbiteriano parou de aceitar novos pacientes em seu setor de emergência. Segundo Frieden, as autoridades de saúde agora estão avaliando e vão monitorar quaisquer trabalhadores que possam ter estado expostos ao vírus nos dias em que Duncan esteve hospitalizado.
"Sabíamos que um segundo caso podia tornar-se realidade e nos preparamos para essa possibilidade", disse o médico David Lakey, comissário do Departamento de Saúde do Texas. "Estamos ampliando nossa equipe em Dallas e trabalhando com diligência extrema para impedir mais alastramento", acrescentou.
Agentes de saúde fazem treinamento no Alabama (EUA)
Funcionários da área de Saúde visitaram todas as residências em um raio de quatro quarteirões do prédio onde a auxiliar de enfermagem mora, distribuíram panfletos à população e fizeram telefonemas automatizados para alertar a população. Policiais ficaram diante do prédio neste domingo, orientando as pessoas a não entrarem. Um deles disse que um barril industrial colocado do lado de fora contém material perigoso retirado do edifício.
Kara Lutley, que vive a meio quarteirão do prédio, disse que não recebeu nenhum telefonema, nem qualquer tipo de orientação das autoridades de Saúde, e que ficou sabendo do caso pela imprensa. "Não estou muito preocupada com a possibilidade de pegar Ebola", afirmou.
Os funcionários também disseram ter recebido informações de que pode haver um animal de estimação no apartamento da auxiliar de enfermagem e que têm um plano para cuidar do animal. Eles afirmaram que não acreditam que o animal possa ter sinais de ter contraído o vírus. Na semana passada, o cachorro de uma enfermeira espanhola infectada por Ebola foi morto pelas autoridades de Madri, apesar de não haver nenhuma indicação de que o animal portasse o vírus. Na África Ocidental, pelo menos 370 profissionais da área de saúde já morreram desde o começo da epidemia.
Paraná
Dos 23 hóspedes do Albergue André Luiz, em Cascavel, no Paraná, 11 são da Guiné e todos eles conheciam Souleymane Bah, de 47 anos. Eles estão entre as 163 pessoas que são monitoradas na cidade, apesar do resultado negativo do primeiro exame de Bah – o grupo inicial era de 68 pessoas.
A cidade ficou mais tranquila no sábado (11/12) com a notícia sobre o quadro de saúde do primeiro suspeito de ter Ebola no Brasil. Uma equipe da Secretaria Estadual da Saúde esteve na noite de sábado no albergue em busca de informações sobre os três compatriotas de Bah que viajaram com para o Brasil no dia 19 de setembro e que estiveram em contato com o suspeito de ter Ebola.
A visita, acompanhada pela reportagem, teve ainda como objetivo monitorar outros cidadãos do país africano hospedados no local. Os técnicos fizeram uma série de perguntas para o grupo de hóspedes. Questionaram os africanos se eles haviam apresentado febre e se tiveram contato com pessoas infectadas pelo Ebola em seu país de origem. Todos negaram qualquer sinal da doença e disseram que não conheciam ninguém que tenha ficado doente na Guiné. Os três homens que viajaram com Bah não estavam no local.
Mais Médicos
A equipe da secretaria apurou que dois deles se mudaram no dia 7/10 para Toledo, a cerca de 40 quilômetros de Cascavel, onde encontraram emprego. O outro colega de Bah não apareceu no albergue também desde o mesmo dia, mas os seus compatriotas não souberam informar onde ele está vivendo. Para conseguir se comunicar com o grupo, que só fala francês, as duas técnicas da secretaria tiveram a ajuda de um médico haitiano que participa do programa Mais Médicos.
Ao final das perguntas da equipe, foi reiterada a informação para que todos os hóspedes verifiquem a temperatura diariamente pelos próximos 21 dias. No albergue, a notícia de que o primeiro teste de Bah deu negativo tranquilizou os demais imigrantes vindos da Guiné. "A gente ficou muito assustado com essa possibilidade. Acho que, com esse resultado, é quase certo que deve ser outra doença", disse o comerciante Sow Abdoul, de 35 anos, um dos compatriotas de Bah hospedado no local.
As autoridades locais também receberam com otimismo o exame. "O resultado negativo dá mais tranquilidade para os profissionais de saúde e também para a população que andava apreensiva com relação ao Ebola no município. Agora é esperar a divulgação do segundo exame", afirmou o chefe da 10.ª Regional de Saúde de Cascavel, Miroslau Bailak.
A orientação das autoridades de saúde é para que as pessoas monitoradas fiquem em casa. "No entanto, a possibilidade de contágio é considerada muito baixa, pois o Ebola não é transmissível pelo ar, mas pelo contato com o sangue, fluidos corporais do paciente ou então por objetos infectados", explicou a médica infectologista da 10ª Regional de Saúde, Lilimar Mori.
Segundo o secretário de Saúde Cascavel, Reginaldo Andrade, entre todos que ficaram isolados na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Brasília II onde Bah foi atendido, havia 30 funcionários, 24 pacientes e 14 acompanhantes. "Só que fomos rastreando todas as pessoas que podem ter tido contato com pessoas que passaram pela UPA antes de a unidade ser fechada. Entraram na lista familiares, amigos, pessoas que tiveram contato com quem esteve no local, por isso o número cresceu", explica o secretário. (Agência Estado/Associated Press)