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Nossas árvores estão sumindo

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01.10.2014 - 15:15:21


Goiânia – Tive minha infância, adolescência e boa parte da vida adulta no mesmo bairro. Só recentemente deixei de morar ali. Mas não parei de frequentar o setor. Minha família ainda mora por ali e velhos hábitos arraigados como comer pastel no mesmo local, frequentar a mesma barbearia, comprar carne no mesmo açougue ou comprar revistas na mesma banca não foram apagados. Mas não é prazeroso voltar à região. Toda semana, vejo que cortaram outra árvore.

 
A última que percebi foi uma de esquina, em uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Abriram um novo comércio no ponto em que a frondosa árvore ocupava a calçada e agora ela não existe mais. Pouco a pouco, Goiânia vai perdendo suas árvores mais imponentes por conta da lógica burra de melhorar a visibilidade de fachadas. É uma idiotia sem tamanho. E toda população sofre com o imediatismo estúpido do comerciante tapado.
 
Pouco adianta plantar uma mudinha no lugar. Na verdade, por ora, não adiantará de nada, tendo em vista que levará décadas para que ela atinja o mesmo porte da que foi cortada. Enquanto isso, a temperatura aumenta vide o calor que vivemos em setembro, o racionamento branco de água (já que não assumido pela Saneago) seca nossas torneiras e as nascentes mortas Goiás afora mostram que a situação não é tranquila. E se não começarmos a nos preocuparmos, a qualidade de vida será cada vez pior.
 
Quem corta a árvore parece sempre ter a resposta para o ato na ponta da língua. Vi no jornal O Popular que mataram uma gameleira no Clube Asbeg. A direção do local alegou que as raízes estavam comprometendo a estrutura de um restaurante. Que se dê outro jeito. Existe tecnologia para que outra solução seja encontrada.
 
E o problema é que não há compensação para esse corte já que serão décadas e décadas para que outras gameleiras que porventura tenham sido agora plantadas cheguem ao tamanho da sacrificada.
 
O triste dessa constatação é que dependemos muito do comportamento individual, já que é impossível para o Estado colocar um fiscal em cada árvore de grande porte. E se fiar no bom senso de nossa gente não é nada confiável – vide o comportamento suicida/assassino da média geral no trânsito.
 
Contudo, punir já é tarefa bem mais simples. Basta querer. Quando o cara mata com justificativa esdrúxula uma árvore, deveria pagar multa pesada e ser obrigado a replantar 50 da mesma espécie. Sei que existe legislação nesse sentido, o que não temos é aplicação da mesma.
 
Eita, Goiânia… Se éramos a cidade das flores, hoje somos a do lixo. Se éramos a cidade da tranquilidade, hoje somos a da violência. Se éramos a cidade do trânsito fácil, hoje somos a do congestionamento e do transporte público ineficaz. Se éramos a cidade das sombras das árvores, hoje somos a das fachadas imponentes. Se éramos a cidade dos lindos casarões no Centro, hoje somos a das demolições cujos lotes viram estacionamento.
 
E assim vamos perdendo Goiânia aos poucos. E assim vou perdendo a vontade de viver na cidade que nasci, sempre morei e crio minhas filhas.  
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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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