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José Cácio Júnior
Catherine Moraes
fotos: Comunidade Atos, no Recreio dos Bandeirantes (credito: Fábio Lima)
A proibição imposta ao padre Luiz Augusto, de só poder celebrar missas para integrantes da comunidade religiosa Atos, aplicada pela Arquidiocese de Goiânia na sexta-feira (28/10), deve gerar ainda mais polêmica entre os fiéis da Igreja Católica. Diretor espiritual da Comunidade Atos, situada no Recanto dos Bandeirantes (extremo Noroeste da capital), o pároco não poderá mais atender a fiéis de outras localidades que procurarem o atendimento dele – para conselhos, missas ou confissões, por exemplo. Apenas 16 pessoas consagradas (que integram a Atos) poderão ser atendidas pelo padre Luiz.
A justificativa foi dada nesta terça-feira (1/11) pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de Goiânia, dom Waldemar Passini Dalbello, por meio do Vicariato de Comunicação da igreja. Segundo o Vicariato, um diretor espiritual de uma comunidade religiosa possui responsabilidades diferentes de um padre de uma paróquia, que atende à comunidade em geral. A arquidiocese negou atrito com o padre Luiz.
"A Arquidiocese de Goiânia é extremamente agradecida pelo trabalho missionário realizado pelo padre Luiz Augusto. Mas como diretor espiritual, ele possui responsabilidade com os consagrados da comunidade a qual responde", completa o Vicariato de Comunicação.
Por orientação da Arquidiocese, padre Luiz afirmou que não dará entrevistas. Pessoas próximas ao religioso contam que ele deve conversar com o arcebispo de Goiânia, dom Washington, na próxima semana, para tomar conhecimento de todas as proibições e tentar chegar a um acordo.
Outro trabalho realizado pelo padre, de assistência a famílias no aterro sanitário de Aparecida de Goiânia, também está suspenso. Padre Luiz levava alimentos, brinquedos e celebrava missas para as pessoas que moram no local, em meio ao lixo depositado diariamente.
Atuação limitada
Com a medida, a atuação de padre Luiz torna-se limitada aos consagrados da Atos. Consagrados, conforme a Igreja Católica, são pessoas que abdicam de sua vida pessoal para viver e trabalhar em prol do projeto missionário desenvolvido por uma comunidade religiosa.
Segundo o fundador da Comunidade Atos, Igo Neander, somente 16 missionários moram atualmente no local. Desde maio de 2011, quando passou a ser diretor espiritual da Atos, padre Luiz construiu um espaço que comporta 3,5 mil pessoas sentadas durante as missas, e normalmente operando com locação máxima. Desde sexta-feira, quando a medida da Arquidiocese foi anunciada, o espaço praticamente deixou de ser utilizado.
Igo Neander afirma que é o arcebispo quem determina as ações que são permitidas a uma comunidade religiosa. A principal orientação é que a programação nas comunidades religiosas seja diferente das realizadas pelas paróquias. A Comunidade Atos, por exemplo, oferecia, aos domingos, "programação intensa aos fiéis que incluem celebrações de missas e outras atividades religiosas", explica Neander.
Missa de Finados cancelada
Por conta da proibição a padre Luiz, a Comunidade Atos cancelou a missa de Finados que seria celebrada nesta quarta-feira (2/11). Agora, a única missa será celebrada aos domingos, para os consagrados.
A medida já começou a valer no domingo (30/10), quando foi lida em missas na capital. Fiéis de outros locais que foram participar da celebração dominicial da Comunidade Atos ficaram revoltados com a decisão, pois muitos acompanham o trabalho missionário realizado por padre Luiz e estão tomando conhecido da suspensão quando chegam à comunidade para participar das missas.
Outra situação ainda pode reverberar. Pelas regras da Igreja Católica, a comunidade não pode deixar de receber pessoas que queiram assistir às celebrações. Para evitar confusão de cancelamento de missas ou troca de pároco em cima da hora, a Arquidiocese de Goiânia tem enviado padres para celebrar na Atos.
A reportagem visitou a comunidade nesta terça-feira e constatou uma verdadeira romaria de fiéis incorfomados com a decisão, formando filas para prestar solidariedade a padre Luiz.
Transferência e polêmica
Depois de 15 anos na paróquia Sagrada Família, na Vila Canaã, situada na região Oeste de Goiânia, a transferência de padre Luiz para a Comunidade Atos foi motivo de mobilização na comunidade católica. Caminhadas, protestos e um abaixo-assinado foi realizado na tentativa de convencer dom Washington Cruz a deixar o padre onde estava.
Além de iniciar a construção do novo prédio da Sagrada Família e da Capela Medalha Milagrosa, o padre realizou diversos projetos sociais na comunidade. Usuários de drogas, grávidas que não tinham onde morar e portadores de doenças conviviam nos abrigos construídos por padre Luiz. A paróquia também disponibilizava profissionais das mais diversas áreas para atender à comunidade. Médicos, dentistas, psicológos e assistentes sociais, entre outros profissionais, revezavam os atendimentos.
O Código do Direito Canônico, livro que reúne a doutrina jurídica da Igreja Católica, define que os padres sejam trocados de paróquia a cada seis anos. A medida é uma forma de fazer com que os padres conheçam a realidade da diocese em que vivem e uma das características da vocação pastoral. Se dependesse dos fiéis da Sagrada Família, a lei seria desconsiderada e padre Luiz continuaria na paróquia.
Por mais que as duas partes neguem, desentendimentos entre dom Washington e padre Luiz seria o motivador da decisão da arquidiocese. As divergências são conhecidas por pessoas que fazem parte do meio religioso, assim como a suposta desobediência de padre Luiz ao seu superior.
Comunidades em Goiânia
O trabalho pastoral de padre Luiz se confunde com outra comunidade de Goiânia, a Luz da Vida, próxima à Atos. Fundada por Luiz Antônio, a comunidade realizava atividades em conjunto com a igreja Sagrada Família quando padre Luiz Augusto era o pároco.
Missas e retiros com a presença do padre eram realizados com frequência. A Luz da Vida, assim como a Atos, é mantida por doações financeiras de colaboradores, e realizava uma vez por mês uma missa para quem contribuia com a manutenção da comunidade. As missas com a presença do padre Luiz também devem ser canceladas.
Segundo a irmã Crislene Pereira de Moreira, formadora da Luz da Vida, a comunidade acatará a mesma decisão da arquidiocese. Cerca de 30 pessoas moram na comunidade.
Existe ainda uma terceira comunidade religiosa em Goiânia, a Nova Aliança, no Jardim Liberdade. A casa-mãe (espécie de sede principal das demais comunidades) fica em Belo Horizonte (MG). Segundo a coordenadora da Nova Aliança, Teresinha Gomes da Silva, seis missionários moram no local.
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