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Sobre o Colunista

Fabrícia Hamu
Fabrícia Hamu

Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica) / fabriciahamu@hotmail.com / jornalistas@aredacao.com.br

Inspiração

Mentiras que revelam verdades

| 05.06.17 - 12:05
 
Querida Cláudia,
 
Imagino sua decepção ao saber da traição da sua amiga e do seu ex-namorado. Os dois ali, tendo um caso bem embaixo do seu nariz, e você de boba na história. Não gostaria de estar no seu lugar, deve bem doído. Mas suspeito que, apesar da dor, também deverá ser terapêutico, porque a descoberta de uma traição costuma revelar muitas verdades que estavam saltando aos nossos olhos, e relutávamos em ver.
 
Acredito que em vários momentos você deve ter percebido algo entre os dois. Uma palavra, uma expressão diferente, um desconforto, um jeito de gaguejar que explicita uma insegurança estranha. Se for parar para pensar, você verá que houve diversas pistas do que estava se passando, mas que você preferiu ignorar.
 
Sobre seu relacionamento, muito provavelmente também deve ter dado vários sinais de que estava prestes a naufragar, mas você certamente negou as evidências. É que essas coisas não morrem da noite para o dia. Geralmente, vão definhando aos poucos. Mas quem é que gosta de presenciar o processo do amor agonizando, não é mesmo?
 
O que quero te dizer, é que a verdade, via de regra, está bem ali, na nossa frente, mas fazemos de tudo para não encará-la. Normal, encarar a verdade geralmente nos obriga a mudar. E nós não gostamos de mudar. Aliás, fazemos o possível para permanecer exatamente como estamos, porque temos medo demais do desconhecido.
 
Enxergar que seu ex-namorado não era fiel e não estava mais inteiro na relação exigiria que você se posicionasse. Como não seria capaz de aceitar a traição fingindo que não sabia de nada, a única alternativa que você teria seria terminar o namoro, mas seguir solteira parecida assustador demais.  
 
Com a amiga, a mesma coisa: ver que ela era amante do seu namorado exigiria que você tomasse a decisão de mantê-la ou cortá-la da sua vida. E como ela te ajudava em outras coisas, te ouvia, aplacava a sua carência e reforçava sua autoestima capenga, não aceitar a realidade dos fatos era mais conveniente.
 
Pense nisso: em muitos casos, negamos a verdade por conveniência. É mais cômodo permanecermos dentro de um sofrimento, de um conflito, de uma insatisfação já conhecidos, do que partir em busca de algo que, talvez, leve anos para ser conquistado, mas que seja mais verdadeiro e completo. 
 
Quem nos trai, frequentemente dá mostras do que está fazendo. É claro que há casos em que a traição é friamente calculada e arquitetada, que o traidor dissimula cada reação e mente descaradamente. Porém, aí não estamos falando de gente normal, mas de sociopatas. Todavia, acredite: até mesmo um sociopata tem algo a nos ensinar. Com essa gente que não gosta de gente, aprendemos a ficar mais espertas, atentas e, principalmente, enérgicas na hora de tomar uma decisão. 
 
Você acreditava que tinha namorado apaixonado e uma amiga leal. Não tinha, era uma ilusão. Percebe que a descoberta da traição te livrou da ilusão? Não se vive assim, na crença de uma mentira. Por mais dolorosa que seja, ela te colocou em contato com a realidade – dura, às vezes sofrida, mas que é a única capaz de nos oferecer relacionamentos reais e sólidos. 
 
Talvez você esteja se perguntando se não tenho pena de você. Não tenho. Sinto dó da pessoa de antes, que preferia se enganar, vivendo um relacionamento irreal, de mentiras. Por essa pessoa de agora, que teve a venda da ilusão retirada dos olhos, sinto empatia e também esperança. A esperança de que agora ela possa caminhar com mais segurança, autoestima e atenção pela vida.
 
Não tenha medo das mudanças que virão. Mudar é sempre benéfico. Talvez doa muito, mas os resultados que advêm dessa dor costumam nos trazer alegrias que recompensam toda as pedras do caminho. Tenha coragem para viver o desconforto que a realidade e as mudanças nos impõem. Eles podem nos arrastar para o fundo do poço, mas é você quem decide se no fundo do seu poço há um ralo ou uma mola. Estou torcendo por você.
 
Um beijo,
 
Fabrícia
 
P.S 1 – Leia este texto ouvindo “Changes”, com David Bowie;
P.S 2- Texto baseado em carta da leitora, cujo nome foi trocado para preservar sua privacidade
 

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